quarta-feira

F34.1 – 300.4

Depressivos morando sozinhos são inevitavelmente mais vulneráveis aos efeitos graves da coisa, uma rede social que se importe e seja presente na vida da pessoa é um dos fatores vitais pra um manejamento sustentável da condição. Descobri porque esses dias: se tem mais alguém no recinto, é impossível ficar repetindo a mesma música triste trezentas vezes até o suicídio, é muito chato pra quem não tá no clima. Sem clima, sem depressão -claro, a coisa vira pura irritação, mas ninguém se mata porque ficou irritado com a (razoável) discussão que se seguiu a vigésima repetição de algum clipe melancólico do youtube.

Eu, Itararé 11

Amigo do meu amigo não tem necessariamente nada a ver comigo.

hipertexto

Em algum momento vão existir serviços de captação biográfica virtual, ou arqueologia eletrônica de disperção, ou algum outro nome mais marketable.
Explico: até o advento do computador conectado na web 2.0 eram bem poucos os agentes que produziam material personalizado pro consumo das massas. Vídeos, músicas, textos e qualquer outra produção (artística, se você quiser) deixaram de necessitar o capital enorme (equipamentos de produção como estúdios de gravação, gráficas, infra estrutura de distribuição como publicidade em rádio, revistas e tv, etc) que antes eram a base do monopólio das grandes indústrias de mídias.
Aliás, o próprio monopólio tem toda uma história interessante que começa na crise de 1929 quando pequenos estúdios foram se juntando pra sobreviver, e depois comprando os menores. A mesma coisa aconteceu depois da segunda guerra, consolidando a dominancia americana, até a invenção da cassete. Depois veio a internet e a música, cinema e o jornalismo (numeros do mundo e do Brasil) nunca mais foram do mesmo tamanho.

Mas junto a essa queda dos grandes centros produtores de mídia vieram as possibilidades de personalização da produção. Qualquer um agora com acesso a um computador conectado pode produzir algo e disponibilizar pra um público potencialmente gigantesco a custo zero.
E claro, como essas coisas vão parar na rede, ninguém sabe exatamente onde deixou o que, quais caminhos obscuros em redes sociais com ou sem biquini a coisa tomou...
Eis que surge o profissional profecionado: o detetive dos dados, o escondedor de escândalos (eu disse que o nome ainda não foi decidido né?), o abortador de abortos, algo no gênero. O facebook tem um lance que diz com quem o usuário namora. Quanto tempo até disponibilizar uma lista de ex-parceiro(a)s? Será que no futuro vamos poder sobrepor gráficos epidemiológicos sobre redes sociais?
Eis que entra então o biógrafo do banal e queima arquivos, computa relações e resgata fotos comprometedoras. Ou mesmo operações menos extremas, tipo resgatar trabalhos pra escola feitos no google docs e nunca registrados em nenhum hd, emails perdidos de declarações de amor, declarações de imposto de renda, blogs panfletários esquecidos, aquele ensaio da banda que alguém filmou e ninguém sabo onde foi parar. Alguém vai ganhar grana com isso, garantido.

quinta-feira

os melhores livros jamais escritos! 5


Vamos Falar dos Romances que Você Nunca Teve -Livro que narra a primeira temporada do talk show mais popular dos últimos tempos, no qual São Pedro recebe convidados recém falecidos e fala sobre suas oportunidades perdidas ao longo da vida.
Indicado para o Emmy© de melhor entrevistador, São Pedro fala sobre a vida por trás dos bastidores do show mais polêmico da tv aberta, e não poupa ninguém. Tudo sobre as revelações de crença (e descrença) das suas celebridades favoritas, as emoções dos depoimentos familiares e os resultados eletrizantes que decidiram como os convidados passariam o resto da eternidade.
Extras do disco: relatos de Judas, Tiago, Mateus e muito mais!

sexta-feira

inside london vii: a garçonagem invade a educação

Então, seguindo os passos da minha mulher agora eu também trabalho como professor assistente (teaching assistant). Funciona assim: quando por algum motivo a escola precisa de um adulto a mais em sala de aula -seja pra dar uma atenção extra a alunos especiais que tenham down ou autismo- ou simplesmente pra ficar de olho nos mais pestinhas, eles ligam pra essa agência que manda pessoas como eu pra ir quebrar o galho.
Paga bem, o dia corre rápido e ainda dá margem pra tirar mais um troco a noite no telemarketing. Mais que isso, ainda dá pra dizer (aham) que tem alguma coisa a ver com aquela coisa que eu passei cinco anos e meio estudando. Um pequeno preço a se pagar pra não ter que viver em Brasília trabalhando pros mesmos chefes dessas figuras adoráveis do video.
Desobediência civil (de servidores públicos) à parte (mais sobre isso depois), o que esse trampo tem me permitido ver da educação inglesa me deixou muito surpreso. O sistema aqui é bizarro, pra dizer o mínimo. Existe uma ênfase maluca em disciplina e preocupação zero com a qualidade dos professores. O próprio emprego de leigos bem intencionados (como eu) é uma amostra do descaso institucional que a educação sofre aqui. Afinal, as pessoas ririam de um hospital que recrutasse enfermeiros ou médicas de agências que não exigem nada além de uma ficha criminal limpa.
Pra ser honesto, existe um curso formal e toda uma burocracia pra poder ser "oficialmente" um professor na inglaterra, mas como tudo nesse país, ninguém sabe exatamente como funciona, e a variedade de maneiras que existem pra obter a licensa pra ser um professor não ajudam a entender a coisa.
Uma coisa no entanto é fato: o requerimento mínimo pra obter uma dessas licensas é o equivalente ao ensino médio brasileiro, e se você já tem "experiência como professor" (como eu estou tendo agora) o curso dura consideravelmente menos (mas o máximo nunca passa dos dois anos).
O resultado é óbvio mesmo pra quem nunca ouviu falar em cultura institucional -um leigo que "aprenda" na prática com colegas cansados e igualmente destreinados obtem todos os vícios e desilusões vigentes do sistema, e depois em um cursinho de alguns meses algum outro desiludido finge que ensina alguma coisa diferente, ou pior ainda, um acadêmico que nunca trabalhou em campo prega idealizações que serão rapidamente descartados pelo senso de "experiência" do leigo.
Adicione o fato de que as coisas já são assim tem um tempo: aparentemente desde que chegou ao poder, o New Labor teve como compromisso com a educação simplesmente encher as salas de aula com adultos (até agora todas as salas nas quais eu trabalhei tinham pelo menos um professor e dois TA), o que evidentemente não melhora em nada a qualidade da educação, mas apela pro senso comum de que menos alunos por professores seria uma coisa boa.
No fim das contas, a baixa formação exigida, a baixa remuneração e a terceirização dos professores leva a um descaso institucional e pessoal com toda a educação. Se o "educador" não passa de uma bengala que é usada cada dia em um lugar diferente, sem planejamento nenhum, e todos os seus colegas profissionalizados advém da mesma cultura -de tratar o trabalho em sala de aula como os garçons tratam os jantares nos quais trabalham em Londres: só um bico que nunca exige mais do que estar presente na hora combinada, o resultado não é difícil de prever.

quarta-feira

ii

Artélio acordou com o som da polícia batendo em sua porta. Não se assustou. Ele sabia que podia acontecer cedo ou tarde, todos sabiam que era ilegal ser um burocrata. Foram gentis, esperaram ele se vestir, o que o aliviou um pouco. Nunca passou pela sua cabeça sair de casa sem o terno.
Enquanto calçava as meias, via os policiais revistando seu quarto. Alguns faziam discretas caras de nojo quando olhavam pro corpo gordo de Artélio, outros quando viram o lixo cheio de comida congelada; outros ainda quando checavam a tv em frente a cama. Filmaram tudo, até quando ele entrou na viatura.

i

Acordou num Dia De Sol. Tinha ficado assistindo Verdadeiros Amigos até tarde ontem, e a loira que ele gostava (no programa) tinha sido eliminada -ela finalmente gritou com a irmã mais nova, que na verdade já a pentelhava tinha um tempo, pensou Artélio.
Abriu a geladeira. Só tinha suco de abacaxi, e estava lá a semanas, intragável. Tinha comprado numa ânsia de ser diferente, de quebrar a rotina, mas depois do primeiro gole (semanas atrás) já tinha se arrependido de não ter comprado suco de laranja. Não vale a pena ser diferente, pensou.
Passou o resto do Dia De Sol assistindo a reprise semanal de Verdadeiros Amigos, mas continuava achando injusto que a loira tivesse sido eliminada.

sonho

hehe, depois de escrever aquela besteira sobre a rebeldia, sonhei no mesmo dia que estava na unb. participava de alguma manifestação contra alguma autoridade na reitoria, acho que tipo um consuni. penetrava na reunião e me batia um cansaço imenso. os olhares de impaciência e irritação dos professores me davam muito cansaço, como crianças que insistem em não entender quando você fala que acabou o recreio. tentava ser claro e didático com eles, cheguei a escrever na lousa uns pontos específicos (tipo "demandas" da manifestação -que curiosamente não tinha mais ninguém participando), tipo publicar as atas das reuniões, explicitar os detalhes do orçamento da unb pra poderem ser cobrados, essas coisas que a gente fazia na psico. quando começavam a me ouvir, entrou um estudante bem mulambo, talvez com o rosto pintado, e começou a gritar palavras de ordem. os olhares de impaciência voltaram, e eu também olhava pro muleque sem nenhuma paciência, sentindo que teria que explicar tudo de novo pra ele também, só que não dava porque ele estava gritando. o cansaço voltou pior ainda, e uma sensação de que aquelas pessoas se mereciam em seus atos de teatro do absurdo. não que os professores me ouvissem mais, pelo contrário, parecia que todo mundo queria aquela situação de incomunicabilidade -porque lhes evitava o trabalho de terem que se entender. eu então saí da sala, e acordei. tenho tentado genuinamente evitar a típica reação de quem sai da academia, aquela crítica fácil de considerar a universidade como uma torre de marfim cheia de teóricos que não entendem nada da mundo prático... mas caralho, como é fácil desembocar por aí.

Eu, Itararé 10

O casamento é aquela coisa que acontece entre o sexo e a discussão de quem lava os pratos. Mais que a pílula e o divórcio, o que ameaça a moral familiar no mundo moderno é a máquina de lavar louça.

terça-feira

Eu, Itararé 9

O problema da rebeldia de hoje é que os rebeldes de hoje não passam de seguidores dos rebeldes de ontem.

sábado

Eu, Itararé 7

o valor de uma rede social (virtual) é diretamente proporcional ao número de fotos de biquini livremente acessíveis.

sexta-feira

os outros 7

Eronilton estava se cansando da vida de gigolô. Principalmente das clientes velhas, justamente as mais fáceis. Tudo o que queriam era ser maltratadas, a clássica fantasia do enfermeiro do asilo. Eronilton queria o amor verdadeiro, mas sabia que pra pagar as contas continuaria interpretando janjão o enfermeiro pervertido do plantão noturno.

Eu, Itararé 5


Piadas da época do seminário:

Ateus chatos vem com essas conversas de ciência e lógica. Não podiam facilitar? Quem tem o problema do mal não precisa de inimigos.

Um bom cristão não deveria acreditar em deus.

Se um dia deus morrer, vai direto pro inferno. O coitado nunca foi batizado.

Jesus te ama mas ninguém te come (esse é um clichê imortal, inicialmente atribuido à Tiago -em uma ocasião na qual estava muito puto com Pedro).

Eu, Itararé 4

O segredo da vida é saber esconder os seus mortos.

os melhores livros jamais escritos! 4


caralho, alguém tem que urgentemente editar um livro de coletâneas de poesias de perfis de orkut. seria um equivalente literário do grande salto adiante. pura pulsão revolucionária.

segunda-feira

os melhores livros jamais escritos! 3

Indo descaradamente onde nietzsche tinha medinho de chegar: uma introdução à filosofia. Edição bilíngue em basco e proto-indo-europeu, porque alemão e grego antigo não são obscuros o suficiente -e afinal de contas, todo mundo sabe que só é possível filosofar em pirahã.

quinta-feira

iconoclastia

To baixando Beatles em mono. Sempre achei idiota ter que ouvir a versão estéreo vagabunda (com batera e vocal de um lado e o resto do outro), finalmente remasterizaram essa porra. Com sorte ficou bom que nem o vinil. Por enquanto, um pouco de humor britânico pra vocês.

sexta-feira

em defesa do racismo brasileiro: hipertexto

Critérios de cotas na UnB. Um exemplo de institucionalização do racismo que o rbr não permite. A estranha reação anti-debate que existe na Inglaterra. A estranha reação anti-debate que existe em alguns pedaços do Brasil (acadêmico, que é bem pequenininho). A institucionalização cheia de boas intenções. E as maneiras de se interpretar os dados. E por último, continuo dizendo que cotas podem ser bem utilizadas como um paliativo interessante e gerador de debate. Ou simplesmente desinformação. Mais sobre isso depois.

quinta-feira

simulação

Uma das grandes inovações da revolução cognitiva na psicologia foi a inserção de metodologias cada vez mais adequadas ao estudo da mente. Se antes o máximo que se fazia era descrever as impressões (de sujeitos -quase sempre estudantes universitários ou pacientes clínicos) ou modelar o comportamento de ratos e pombos, não é de se estranhar que existissem sérias limitações no quanto podia se entender da mente.
Uma das idéias mais produtivas dessa época foi a de que uma das maneiras de se entender como um organismo resolve um determinado problema é "construir" algo capaz de resolver o mesmo problema. Construir um coração artificial é bem difícil sem entender que o coração funciona como uma bomba de sangue, pode-se descreve-lo de várias maneiras diferentes, mas é inegável que a idéia que sirva não só pra descrever a coisa, mas que de fato resulte na possibilidade da manufatura de algo que execute a mesma função, aproxima-se mais de como a coisa funciona em si.
Imagine uma descrição de um joelho que quando construida não dobre? Ou uma descrição ricamente detalhada que seja impossível de se construir? Ou de ao menos simular? Com certeza falta algo em meio a toda essa riqueza de detalhes. Se o general é incapaz de ajustar a maquete com os bonequinhos nas posições correspondentes às tropas durante a batalha, é duvidoso que ele saiba do que está falando, e a mesma coisa se pode falar do mecânico que discursa longamente sobre o problema do motor, mas que não sabe o que fazer pra consertar.
Eu consigo inventar várias maneiras diferentes de descrever o meu computador, de descrever um programa de jogo de xadrez (no qual, aliás, eu sempre perco pra máquina...), mas não tenho nem idéia de como construir algo que execute as mesmas funções. E esses são exemplos que não falam de nenhum mistério da natureza, são coisas feitas por pessoas como eu e você. O que dizer de complicações como que o cérebro faz, ou o preconceito gera?

segunda-feira

restless dreams iv









Staff room, O'Neill's -onde eu trabalhava.

panelinha


Minoru Yamasaki, the american-japanese architect of the 1973 Twin Towers, was favoured by the Saudi Arabian royal family. He designed three Saudi airports. Osama Bin Laden, Al-Qaeda's mastermind, worked as a business manager in his father's vast Saudi Arabian construction company involved in Yamasaki's contracts. Mohamed Atta, leader of the September 11th kamikaze, was a german-trained graduate in architecture and urban planning.

quinta-feira

políticas públicas de quando eu dominar o mundo


Rápido pensamento sobre planejamento familiar: vasectomia obrigatória em todos os homens aos treze anos e vasovasostomia (como é chamada a cirurgia de reversão) opcional após os 18. Prevejo um ligeiro aumento epidemológico de DSTs (inicialmente, com queda em seguida), uma queda dramática em gravidez indesejada e (logo) riscos de saúde associados aos abortos ilegais, e talvez a questão mais importante, uma diminuição da evasão escolar.

terça-feira

generalização

Generalizar é uma das funções cognitivas mais importantes e adaptativas. Um caçador que nunca fizesse generalizações morreria de fome (como posso saber se esses rastros são de capivara? todos os rastros são únicos e distintos!). Uma criança que nunca fizesse generalizações teria muito mais chances de se ferir (como posso saber se essa tomada tem as mesmas características daquela que mamãe falou pra não meter o dedo? -e o mesmo pra fogo, facas, alturas, estranhos, predadores, etc).
Uma mente generalizante sem dúvida trás mais vantagens ao organismo do que uma mente preocupada em valorizar as particularidades do mundo. Um sistema que encaixasse as coisas do mundo em grupos baseados em algumas poucas carácterísticas (vaca tem chifres, quatro patas, dá leite) é muito mais leve do que um que constantemente individualisasse os elementos do mundo (mimosa tem chifres, quatro patas e dá leite; malhada tem chifres, quatro patas e dá leite; estrela tem chifres, etc), e muito mais rápido, apresentando ainda uma grande vantagem: se o sistema "vê" uma coisa com chifres e quatro patas, nem precisa se dar ao trabalho de ordenhar a coisa ele mesmo, o sistema já infere que essa coisa dá leite.
Lógico, generalizar as vezes leva a erros e não constrói uma imagem perfeita do mundo. Mas a seleção natural não tem nada a ver com ver o mundo como ele é, e os erros que o as generalizações causam (o lobo guará tem caninos afiados, come pequenas presas e tem quatro patas -logo é deve ser evitado como a onça) são menos fatais do que a fatalidade que é conferir uma por uma se as onças são perigosas. A estratégia generalizante não precisa ser perfeita, só precisa ser melhor do que a alternativa. (como a piada dos dois caras que passeando na floresta encontram um urso. um deles começa a correr, e o outro fala "você não sabe que é impossível correr mais rápido que um urso?" e o outro responde: "sei, mas eu só preciso correr mais rápido do que você").

Memética


Memes são pedaços de informação (palavras, artefatos, comportamentos, idéias) que se propagam pelo mundo cultural . Eles competem por recursos
(porque as coisas que tem nome não podem ter infinitos sinônimos, porque os requesitos pra fazer coisas são finitos, porque o tempo dos indivíduos é finito, e porque a memória dos indivíduos é finita). Memes se propagam por imitação (os comportamentos, as palavras, as idéias), produção material (como os artefatos, as idéias materializadas em coisas -tipo livros), e instrução (as linguas, os comportamentos, as idéias, as maneiras de fazer coisas). A propagação dos memes não é perfeita, e as vezes surgem cópias com erros de reprodução (mutação). Alguns desses erros vão dificultar a propagação do meme mutante, outros vão facilita-la. As variações que se propagarem mais eficazmente acabam substituindo as menos eficazes, e os erros de cópia vão se acumulando até darem origem a linhagens completamente diferentes de agrupamentos de memes. Competição-reprodução-mutação. Essa é a receita da seleção natural. Não só organismos vivos (feitos de genes) sofrem o mesmo processo, qualquer coisa que obedeça as três condições tem o mesmo destino.

em defesa do racismo brasileiro 1.5

Mas por que escrever sobre isso? Qual o súbito interesse sobre o racismo brasileiro?
Morando em Londres a um ano, encontrei vários brasileiros por aqui (principalmente nos diversos trabalhos, desde os tempos da garçonagem), e muito me assustou o racismo explícito no discurso desses indivíduos. O que quer que seja que ative os elementos "disfarçantes" do rbr no Brasil não parece funcionar nas pessoas aqui. Não é um simples caso de adoção do racismo típico londrino: os europeus, chineses, indianos, latinos que eu encontro aqui não são tão pejorativos e explícitos quanto os brasileiros em suas categorizações raciais (e não é por falta de oportunidades, eu pergunto essas coisas).
De repente não se apresentam mais a categorização racial (negro, preto) como um tabu mascarado por questões de classe social (como no Brasil), mas sim generalizações pejorativas sem nenhuma maquiágem. Se alguém for grosseiro no ônibus, geralmente é negro; se o bairro é de negros, é perigoso; se alguém está fedendo, geralmente não é o branco. (já ouvi barbaridades que fariam os gaúchos mais nazistas corarem, coisas do tipo "são uns selvagens que viviam em florestas").
Londres é o lugar mais interessante pra se ver o mecanismo racista funcionando porque é (provavelmente) a cidade mais multicultural do planeta. Aqui se trava contato cotidiano com pessoas de todos os continentes, e quase todos os lugares públicos são permanentemente decorados com uma fauna que parece aquelas propagandas politicamente corretas (que sempre tem brancos, negros, asiáticos, indianos, árabes, etc), parece de mentira.
Aqui rapidamente se aprende que só porque o indivíduo é branco não quer dizer que ele seja europeu, e só porque ele é da europa oriental não quer dizer que seja polonês. Ninguém diz que a menina deve ser chinesa por causa dos olhos puchados -poderia ofendê-la se ela for japonesa, coreana, mongól, vietnamita, etc. Mesmo quando se ouve alguém falando espanhol não é seguro chutar que se trata de um espanhol, porque mesmo que seja o caso, o sujeito frequentemente se identifica como catalão, galiciano, valenciano, etc. Italianos do sul e do norte frequentemente não se misturam, e aí de você se perguntar se a iraniana fala árabe (eles falam farsi).
O peculiar é que toda essa variedade e o consequente protocolo pra lidar educadamente com ela aparentemente não se aplica ao sujeito que tiver feições mais negras. Apesar da mesma variedade cultural se aplicar aos londrinos pretos (do egito à africa do sul, da nigéria à somália, incluindo o caribe) que populam a inglaterra desde o século xvi, no discurso dos brasileiros o preto que furou a fila não é jamaicano, não é marroquino, é só preto mesmo.

segunda-feira

em defesa do racismo brasileiro 1.4

O final da história bem sucedida de uma política afirmativa (como cotas raciais) é a contradição que mete medo em tanta gente: se depois que os indicadores sociais se igualarem (o que quer que isso signifique -renda, diplomas, senadores, número de eletrodomésticos, expectativa de vida, etc) entre os grupos diferênciados (negros auto-declarados, fotos julgadas pelo cespe, histórico familiar, se o pente engancha no cabelo, etc) ainda vai existir uma divisão racial -a da própria política de cotas.
Claro, isso se resolve fácil, é só botar um prazo pra terminar a política de cotas, ou melhor ainda, deixar claro que metas (de novo, o que quer que isso signifique) se quer atingir, e estipular que uma vez atingidas a legislação se anule.
Mas como disse uma vez Milton Santos, no Brasil ninguém quer ser cidadão, queremos é privilégios. Ser cidadão é ser igual a todos, e num país de fudidos, a moral sempre foi ficar por cima da carne seca. Ninguém quer compartilhar as mesmas regras, o jeitinho e as relações privilegiadas (de sangue, camaradagem, etc) são a expressão maior da falta de apego aos valores de igualdade, e não é de se estranhar que movimentos pra se obter concessões da lei pra uns indivíduos seja visto com suspeita por outros: nunca vi nenhuma proposta de cotas (raciais, sociais, de deficientes físicos, de gênero, etc) com metas definidas. O objetivo (político) nunca é resolver um problema, é ganhar um privilégio.
O que não quer dizer que (as cotas) não sejam uma possível solução pro problema -diversas ações políticas são boas a despeito das intenções de seus autores (fulano só construiu a escola pra ganhar votos, por exemplo). Mas é importante ter em mente que isso não passa de uma ação política (e não uma coisa certa, ou justa, em si). O movimento organizado por cotas raciais não está nem aí pro preconceito contra homossexuais, não se importa nem um pouco com os nordestinos (que a classe média paulistana as vezes se refere como se fossem uma espécie leprosa de sub-humanos muito mais negros que o nanquim), o mesmo pra imigrantes bolivianos ilegais, cadeirantes, etc.
Não se trata de uma questão de justiça, trata-se de um privilégio político pra compensar um preconceito social específico do interesse do movimento. Esperar de um sujeito político (o movimento pró cotas raciais, por exemplo) mais do que isso é como esperar que um senador exija verbas proporcionais pra todos os estados da federação, ao invés de lutar por mais pros seus eleitores (que com certeza estariam sendo injustiçados se não tivessem um pouquinho mais).

em defesa do racismo brasileiro 1.3

Mas se no racismo brasileiro existem esses mecanismos "limitantes" isso não significa que o preconceito racial não produza a divisão social que existe. Se é difícil falar em quem é preto ou branco no Brasil, não é difícil falar que a elite é mais branca do que o povão, que os universitários são mais brancos que os analfabetos, que os políticos são mais brancos do que a população carcerária.
A hipótese de que o rbr não permite o discurso ainda o deixa livre pra agir por meio de indivíduos, como os empregadores que decidem quem vai conseguir as vagas ofertadas, como os professores (que têm em suas expectativas uma influência dramática na educação dos alunos), como os eleitores na hora de votar secretamente num candidato. Gostaria que não fosse preciso mencionar os policiais e seus critérios de tratamento, mas é o exemplo mais patente de como o racismo, mesmo sem estar escrito em lei nenhuma, é dramático nos efeitos que tem na população menos branca.
Fazendo as contas, esses exemplos simplórios já dão um sisteminha perverso de exclusão social, afinal indivíduos em um grupo que é menos educado, menos contratado, mais policiado e menos eleito tem muito menos chance do que alguém menos preto teria nas mesmas situações.
É aí que entrariam as políticas de cotas. A idéia é de reconhecer esse preconceito informal e contrabalancea-lo com "incentivos" institucionais voltados aos menos brancos. Tratar todos como iguais, sendo que eles são desiguais situacionalmente (por conta de contigências do mundo, não por serem desiguais em si), é idiota como tratar enfermos em uma sala de emergência por ordem alfabética, e não por gravidade do problema.
Existe uma diferença entre a admissão de que pessoas chave são racistas (como policiais, professores, empregadores, etc) e que isso pode ser balanceado com uma política de cotas pra indivíduos do grupo discriminado, e a idéia de que os integrantes de um grupo foram discriminados no passado (e escravisados, e humilhados, e chacinados, etc) e que isso pode ser corrigido "compensando" indivíduos que se dizem herdeiros desse grupo hoje. A segunda idéia é estapafúrdia porque pressupõe uma união entre todos os beneficiários da ação afirmativa (cotas universitárias pra negros, por exemplo), formando uma "coisa" que pudesse ser compensada hoje pelas ações que essa mesma coisa sofreu ontem. Além de não fazer sentido, esse modo de ver o mundo permite ingenuidades do tipo "barack obama ganhou o nobel da paz, isso é uma vitória pros negros do mundo". É, muda muito o cotidiano do preto tomando um baculejo na periferia.
Na verdade, nem as cotas raciais universitárias mudam nada pra esse cara do baculejo, as cotas vão aumentar a chance de um pequeno número de indivíduos (que se dizem pertencentes a esse grupo) de obter um canudo que aumenta a chance de serem contratados em algum emprego que pague mais. A idéia é que (na melhor das hipóteses) com o tempo esses indivíduos e seus descendentes (contanto que continuem a ser percebidos como "menos brancos" ou discriminados) ocupem mais posições chave (de professor, político, empregador, etc), e que suas histórias de sucesso minem as concepções preconceituosas dos racistas (brancos e pretos), acabando com a idéia de diferença racial (que no entanto continuaria a existir no papel de lei das cotas).

em defesa do racismo brasileiro 1.2

Mas por que defender o tipo brasileiro de racismo? Não seria ele mais ardiloso de se combater (uma vez que é tão adaptado pra evitar ser enfrentado?) do que o explícito racismo no norte? Na verdade eu não sei se o rbr é mais ou menos forte (ou presente, ou resistente, ou vencível) do que o racismo admitido do norte, mas eu sei que ele é muito mais limitado nas tragédias que pode causar, e eu vejo isso como uma grande vantagem.
As adaptações do rbr (auto-invisibilidade, tabu, etc) tem como um dos efeitos limitar o quanto se pode produzir discursos racistas. Os atos racistas derivados do rbr são sempre limitados em escala, porque tem que ser atos individuais, a falta de articulação explícita impede a articulação das ações racistas coletivas. Grupos explicitamente racistas (ou políticas, ou movimentos, etc) tem muita dificuldade de se estruturar justamente pela dificuldade em organizar o discurso racista.
O apartheid sul-africano (ou o israelense) e o holocausto nazista, por exemplo, não são permitidos pela estrutura do rbr, porque esse impede que líderes e legisladores institucionalisem práticas racistas. Não se pode ter um partido político anti-negro (ou pró-branco, ou algo parecido) porque o racista brasileiro clássico tem como característica inicial negar a existência da diferença racial. O que dificulta o combate ao rbr são as mesmas propriedades que limitam a sua escala.

domingo

em defesa do racismo brasileiro 1.1

Mas o ponto é a diferença entre o modelo do norte (de institucionalizar a raça com políticas públicas, etc), e o racismo brasileiro.
O racismo brasileiro tem (além da falácia de atribuir ao indivíduo as características do grupo -que toda discriminação tem) três pontos muito particulares associados a ele (tão associados que vale a pena chama-los de memes constituidores do complexo de memes -memeplex- que é o racismo brasileiro -rbr). São eles:

1. não existe racismo no brasil. Essa é com certeza uma das mais distintas características do rbr, existe toda uma mitologia apoiando a idéia de que ele não existe. Três provas são frequentemente usadas pra apoiar essa idéia:
1a. todo mundo trepa com todo mundo (e a micigenação consequente),
1b. existem negros ricos/importantes (que ninguém discrimina, tipo o Pelé)
1c. existem brancos fudidos também
(essas duas últimas "provas" são usadas pra embasar a segunda grande característica do rbr)

2. o preconceito no Brasil não é de raça, é econômico/social. O que umas pessoas complementam com
2a. é um absurdo e tem que acabar; ou
2b. o mundo é assim mesmo; o que alguns poucos ainda emendam com o racismo clássico, dizendo que os pretos são pobres porque são pretos (o racismo fora do armário).

3.falar sobre racismo é falta de educação. O que pode ser complementado por
3a. falar sobre racismo é ser racista: porque requer generalizações grupais, como o próprio racismo (esses racistas são isso e isso; os negros não são assim, são assado; etc)
3b. viola a primeira regra (1): o que implica que alguém tem que ser racista (e entra no velho problema de que brasileiro é sempre o outro).

O rbr como memeplex apresenta mecanismos de sobrevivência muito interessantes: ele se torna escorregadio às idéias que poderiam mina-lo ou substituí-lo, primeiro negando a própria existência, depois desviando o assunto, e por último impondo um tabu social sobre sua discussão. Não é a coisa mais original do mundo, diversos dogmas religiosos (os "mistérios" cristãos, por exemplo) impõem tabus sobre as tentativas de examina-los, e não é a tôa que essa seja uma estratégia comum entre os memes: trata-se do que o filósofo Daniel Dannett chama de "good trick", uma solução ótima pra um determinado problema (como os olhos -pra perceber o mundo- que evoluiram paralelamente em diversas espécies).

em defesa do racismo brasileiro

Muito já se disse da diferença entre o modelo racista brasileiro e o do norte -eua e europa (embora as coisas sejam provavelmente piores nas ex repúblicas soviéticas e no japão -o melhor exemplo pré expansão no pacífico sendo o povo Ainu).
A visão popular diz que aqui (no norte) existe uma admissão institucional do problema e soluções institucionais são postas em ação (cotas, bolsas, benefícios e legislação).
O problema é que qualquer ação institucional (pelo governo, por exemplo) sofre o risco de incorrer na estrutura racista de pensar as pessoas que
1. implica na falácia de atribuir a indivíduos as características associadas ao grupo (fulano deve ser malandro porque é carioca, e todo carioca é malandro); e
2. implica na idéia de que os integrantes dos grupos (preto, viado, bahiano, etc) agem sempre em benefício do próprio grupo, formando uma espécie de "organismo social".
O problema 1 é só uma questão lógica no formato "alguns homens são mortais; sócrates é um homem; logo sócrates é mortal" o que é um tipo de erro de inferência -a confusão entre "alguns" e "todos", ou pode ser um erro de indução mesmo, aquele velho conhecido.
O problema 2 é mais idiota ainda, mas como ele ainda é ensinado em muitos cursos de humanas (e pregado em igrejas, patriotismos e derivados) ele não é muito famoso como um erro. Existem diferenças entre o que alguns sociólogos (e antropólogos, e historiadores, e todos marxistas, e tod@s @s feministas, etc) falam (que supostamente é uma descrição do mundo), e do que é pregado pelo Estado e pelas religiões (que é um comando moral). O que é "errado" é a idéia de que isso é verdade no mundo que existe, a moral é outra história.
E por que é errado? Porque as pessoas simplesmente não são assim. Você não aceitaria se eu dissesse não te devo nada porque paguei os 10 paus que tu me emprestou prum outro homem também (afinal vocês são todos homens). Ou que você tem que me desculpar porque já pedi perdão pro outro brasileiro (porque vocês são todos brasileiros mesmo). Ou se eu prendesse um outro flamenguista pelo assalto do qual você foi vítima (afinal, são tudo urubu). Sim, esse é um dos argumentos das cotas racias, e ele é ofensivamente estúpido, mas felizmente ele não é o único argumento.

terça-feira

os nomes escrotos: o último dos machos

-Boa tarde, a senhora Fulana de tal se encontra?
-Quem que quer falar com ela?
-Meu nome é Pedro Barahona e falo em nome da C@rgl@ss. A senhora Fulana se encontra?
-Sou o Marido dela, pode falar.
-Eu compreendo senhor, mas como Fulana de tal é o nome que nos foi indicado, tenho que falar com essa pessoa primeiro.
-Mas quer falar o que com ela?
-É uma pesquisa de satisfação senhor.
-Ela já tá satisfeita muito obrigado.
(e desliga o telefone).

restless dreams iii





Joel-Peter Witkin, mais um bizarrinho pra coleção.

sábado

inside london vi

Folheando entre as páginas de uma velha bíblia no British Museum encontro um trecho estranho, perto do Genesis:
"-Venho desarmado, disse o homem, e quero conhece-la, falou usando as palavras da época.
-Se estás desarmado, perguntou a mulher, o que há nesse ventre roto que nunca cria nada?
Ao que o homem baixou a cabeça e se foi."
Numa prateleira mais baixa encontrei outra edição dessa Bíblia, que tinha uma versão na qual o homem era Abel e respondia:
"-Raiva, respondeu o homem, o que com o tempo logo aprenderás a gostar.
E ao chegar em casa bufando Abel se deparou com seu irmão e avançou nele. Caim então se defendeu matando seu irmão sem querer. Enquanto enterrava o corpo ascendendo os incenços como mandava O Senhor, perguntou a Yaveh o porquê disso tudo. Não teve resposta, mas desde então irmãos não puderam conhecer a mesma mulher, o que antes não incomodava ao criador."
Estranho.

segunda-feira

restless dreams ii






Francis Bacon, pros valentes.

Neuras 2.4

O cérebro seria então inútil pra entender a mente? Claro que não. Não importa o quão filosófico o psicólogo se proponha a ser, o contraste com as evidências é a grande ferramenta da ciência. O cérebro (e os experimentos psicológicos de laboratório) são a grande arena de falsiabilidade das teorias da mente. O que começou com o problema da indução tem uma resposta bem funcional (na minha modesta opinião) na idéia do Popper de falseabilidade (que também tem seus probleas filosóficos, particularmente Quine -mas aí já é filosofia pesada- desse que foi um dos poucos behavioristas inteligentes).
Exemplo: um dos principais argumentos de Descartes pra mente ser uma coisa à parte da realidade física (alma, espírito, etc) era sua indivisibilidade. Se ele tivesse conversado com algum médico familiarizado com lesões cerebrais (mesmo naquela época) poderia ter visto as evidências em contrário, como as bizarras alterações cognitivo-comportamentais que Oliver Sacks descreve em seus livros.
Outro exemplo é Aristóteles. Demonstrando o perigo de não ter um método experimental, as conjecturas do grande filósofo o levaram a pensar que a função do cérebro era resfriar o sangue. Eu não consigo imaginar como alguém consegue ignorar tantos motivos pra achar que o cérebro tem alguma coisa a ver com o pensamento, mas Aristóteles conseguiu. Se bem que lembro vivamente de alunos (e professores) na UnB falando que a mente é mais do que o cérebro, ou que a mente seria distribuida pelo corpo todo (?!), ignorando que ninguém nunca ficou amnésico por quebrar o braço, ou curou sua epilepsia com uma cirurgia de redução de estomago...
É no contraste das idéias com as evidências empíricas que se cortam os excessos. É a diferença entre Freud e Cajal, Jung e Ebbinghaus. Importâncias clínicas a parte (e elas são enormes) o impacto que o acúmulo de dados com os quais contrapor teorias teve pra psico e neurologia é muito maior que as idéias em si. Mas dados não criam teorias, dados são acumulados pra corroborar ou destronar idéias. As curvas (e métodos) desenvolvidos por Ebbinghaus tem que fazer parte de qualquer teoria sobre como funcione a memória, mas elas em si não fazem mais do que isso. No entanto, são o suficiente pra criar amplas dúvidas sobre os delírios junguianos. Do mesmo jeito, as descobertas de Cajal puseram (desde aquela época) serias incompatibilidades com as pulsões freudianas.
...
Enfim, é isso. Essa é minha crítica a idéia de que a neurologia é a chave pra se entender a mente.

Neuras 2.3

Esse formato aforismático tem desvantagens que casam com a minha preguiça direitinho, por isso, sem mais refinamentos, o porquê do cerebro não ser A resposta pra nossa atual ignorância sobre o que é a mente.
...
Comecemos de ladinho.
Suponha que um economista queira entender a economia de um país. Ora, economia é só um nome que damos a uma abstração composta de N agentes trocando coisas por coisas. Essas coisas podem ser coisas físicas mesmo, podem ser idéias, podem ser o meu trabalho por um determinado tempo, etc. Nas economias modernas, no entanto, consolidou-se o meio de troca de coisas conhecido por dinheiro. Quase tudo o que hoje se chama de economia acontece envolvendo dinheiro, e tudo o que envolve dinheiro é chamado de economia. As coisas inclusive são reconhecidas só em função de quanto dinheiro elas valem (na economia), e por isso não é um exagero dizer que a economia pode ser vista como a circulação de dinheiro entre agentes. Entender as propriedades (físicas) do dinheiro (moeda, papel, cheque, etc) é sem dúvida interessante e complementar pra se entender a economia. Mas a não ser que se tenha um esquema pra tentar encaixar toda aquela circulação de dinheiros, saber que na nota de R$ 50 tem uma onça, ou entender como se desenha uma marca d´água, não esclarece nada.
...
Um livro trás os mesmos problemas. As propriedades físicas do papel, o conhecimento exato da fonte usada nas letras, saber exatamente onde começa um capítulo, ser capaz de criar até mesmo um índice remessivo, etc, não adianta nada se você não sabe traduzir em que língua está escrito o texto. Os carácteres escritos no livro são pistas interessantes, afinal, um livro que tenha uma diversidade muito maior de caracteres deve estar escrito em uma lingua com mais fonemas (mas a lingua escrita com menos caracteres pode simplesmente estar escondendo regras combinatórias como lh, nh, th, em exemplos familiares). Podemos até estabelecer correlações estatísticas super-interessantes, como inventar dois conjuntos -e chama-lo de vogais e consoantes- e dizer que eles geralmente se alternam (aposto que isso tem uma correlação estatística, ehehe). O que isso ajudou a entender o texto? Nada. Sem um dicionário e uma gramática não temos como saber o que o livro diz.
...
Imagine agora que você tenha um problema no seu computador e queira checar a compatibilidade das suas placas novas (que acabou de instalar no gabinete) com um monte de softwares que você queria instalar tinha tempo. Detalhe: seu monitor não funciona, você vai ter que fazer isso só medindo a carga elétrica de cada transístor.
Tudo bem, um exemplo menos impossível. Imagine querer entender como funciona um jogo complexo, como o World of Warcraft (com seus 12 milhões de usuários oficiais), só que só tendo acesso aos roteadores dos provedores e usuários. Tudo bem, quer um desconto? As vezes tu pode escolher um output de um jogador e filmar em tempo real com a atividade de algum roteador, pode até digitar os comandos que quiser no teclado e mouse desse jogador. Boa sorte em tentar entender como funciona o jogo: quais suas regras (como o programa transforma input em output, qual o formato de seu banco de dados, etc, algo como o código fonte), quais os objetivos do jogo, o porque das pessoas jogarem, etc.
...
Todos esses problemas são análogos à relação mente-cérebro. Não me entenda errado: a mente não é nada além do cérebro. Não acredito em dualismos, emergentismos ou epifenomenalismos, muito menos em behaviorismos. O problema é saber qual a configuração computacional que chamamos de mente.

sexta-feira

os outros 6

Estava aprendendo a controlar sua infofilia: não passava nem perto do computador. Lia livros como um alcoolatra que come bombons de licor pra evitar a garrafa de vodka.
Tinha passado do pior aspecto da patologia, quando o infofílico deixava de parecer um alcoolatra e ficava ganância pura -nem sequer aprendia nada sobre o que via, seu prazer era na pura sensação de folhar gigabites de informação geralmente desconexa e irrelevante.
Os sintomas chegaram no extremo quando seus olhos doiam e mesmo assim ele não os piscava na frente do pc, alternando posturas desconfortáveis na cadeira, na cama, no chão, laptop no colo. Uma das piores partes eram as músicas. Não ficava mais do que trinta segundos em cada uma, vertiginosamente zapeando pelas discografias que nunca conseguiu ouvir.
Um dia sua família fez uma intervenção. Não conseguiam mais manter uma conversa com o rapaz porque esse não ficava num assunto (desconfiavam que nem em pensamento) por nenhum tempo inteligível.
Hoje está mais controlado, mas não fala muito.

direto do moleskine viii

A política no Brasil entrou em sua fase moderna pós-ditadura: armando a esquerda com poder administrativo (que) dissolve o ideal revolucionário. As utopias, mudanças e reformas dão lugar a pura administração do que está aí.
Política deixa de ser embate entre ideologias para ser mera administração da máquina estatal (a diferença entre politic e policy -que estranhamente a wikipédia traduz como "política pública"- adoro a wikipédia). Questões de racionamento de recursos sempre baseados no "possível" porque já foi feito, no conhecido, no consolidado.
A política inglesa é isso puro. Uma das primeiras coisas que se estranha ao emigrar pra essa ilha é que não existe diferença política entre Torys e New Labor. A Inglaterra pós-thatcher e pós-crise financeira tem um concenso silencioso de que o negócio é segurar as pontas. O neo-liberalismo dos anos 80 desarmou a economia real do país, e a crise mostrou que o mercado financeiro só existe enquanto se acredita nele, e infelizmente como é só isso que resta, a cada banco que quebrava os MPs (membros do parlamento) batiam palmas em desespero. Ou seja, os dois partidos são a favor da primazia do setor financeiro (não que eles tenham escolha), os dois partidos não estão nem aí pra educação, os dois partidos são aliados incondicionais de Washington, os dois partidos são a favor de benefícios sociais que fariam Lula corar pela modéstia da Bolsa Família. E claro, ninguém nunca ousa falar nada sobre nenhuma mudança no sistema, aquelas coisas básicas tipo escrever uma Constituição.
O experimento americano da reforma do sistema de saúde mostra a resistência atual contra uma política de possibilidade. Não que seja uma coisa revolucionária (afinal, os eua é o único país "desenvolvido" a não ter um sistema público de saúde), mas americanos são americanos...
E a China, o país da moda? (aquele cuja economia iria dominar o mundo -até outro dia, pelo menos- igual o Japão nos anos 80, a união européia nos anos 90, etc...). A administração dos próprios recursos (que já são enormes, e somados aos investimentos externos) sem mudanças no sistema, não são revolução, não importa o quão bem sucedido seja. Não passa de mais um furo nas hipóteses da Ciência Política de direita, aquela que falava que com desenvolvimento economico vem o desenvolvimento social, aqueles caras que não sabem o que é Arabia Saudita, Brasil, Israel... A única diferença política que todo o desenvolvimento chinês teve pro seu povo foi que no próximo massacre em Tian´anmen vai ter videos no youtube.
Abaixo, evidência fotográfica que existem orientais com genitais subsaarianos.

quinta-feira

direto do moleskine vii


Quando eu digo "direto do moleskine" eu quero dizer alguma coisa tipo isso. Fiquei com preguiça de organizar as idéias, vai a coisa tosca mesmo.

segunda-feira

Neuras 2.2 (ainda o anexo da medicina)

A medicina mesmo é uma hibridização estranha. Cirurgiões não passam de artesões da carne, precisam muito mais habilidade manual do que conhecimento sistematico do corpo humano. Os caras que bolam as técnicas (tipo transplante de coração, ou as geringonças, como marcapasso, etc) são uns gênios, mas são poucos. O médico típico não passa de um grande banco de dados de sintomas, síndromes e remédios -e estratégias heurísticas pra ligar uns aos outros.
Essa é a grande sagacidade do método indutivo (ou especificamente a variação do paradigma indiciário, como chama Ginzburg em um de seus artigos -foi mal, procurei em todo canto um pdf disso, não rolou- tudo o que esse cara escreveu é foda demais, mas em particular o livro "Mitos, Emblemas e Sinais", que trata das raízes históricas dessa perspectiva -faça-se um favor e leia): o acúmulo de evidências que culminam em uma teoria, ou auxilia em sua concepção.
Mas não se engane, um monte de observações só valiam pra Sherlock Holmes porque ele sabia o que elas significavam: traços de pólvora só fazem o sentido incriminador pra quem sabe de sua ligação com a arma (do crime por exemplo).
Uma criança sonha que tem os pés de fora da cama. O que isso significa? O jovem Freud tem uma teoria que o permite interpretar esse sonho: os sonhos são tentativas do inconsciente de satisfazer desejos por meio de fantasias. Ora, diz Freud, toda criança deseja ser "grande", e os pés saindo da cama podem ser vistos como uma imagem de que a criança está tão crescida que nem cabe mais em seu leito.
Existem fronteiras perigosas entre o que se chama de prova ou evidência: como os atentos perceberam no exemplo psicanalista, o sonho só corrobora a idéia (de Freud) se você compartilha suas premissas (os sonhos são satisfações dos desejos, etc), ele sozinho não quer dizer nada. A diferença da pólvora (que foi liberada no disparo da arma e se fixou nas mãos do assassino) é que ela tem premissas muito mais aceitas, como as reações químicas envolvidas, a aderência a pele, etc. No fundo, também são um monte de sinais que precisam dessas "premissas" pra fazerem sentido.

Neuras 2.1 (anexo da medicina)




Essas formatações do saber não são só os cliches de "ciência burguesa" -como o neoliberalismo na economia e na política, ou o lysenkoismo e marxismo (pros soviéticos), mas estratégias de aquisição e sistematização dos dados inerente a cada disciplina. Menos do que epistemologia, estou falando de heurística, de enquadramento (framing). O próprio método experimental é uma tentativa de minimizar os viéses (políticos, de framing, etc), mas obviamente os menos ingênuos vão perceber que isso não passa de um outro enquadramento, de um outro objetivo a priori que não tem nada a ver com os dados em si. Toda pergunta esconde metade da resposta, e quando se pergunta uma coisa, inevitavelmente se deixa de perguntar outra.
Isso não quer dizer que vale tudo. Aí que entra o insight foda dos pragmatistas, mais verdadeiro é o que funciona. Dadas as aspirações que são estranhamente comuns entre as culturas (como se preservar os alimentos, ou se proteger de seus inimigos, por exemplo), é inegável que a geladeira e a metralhadora sejam vistos como "avanços" em direção a algo melhor, que a longevidade proporcionada pela moderna medicina ocidental está baseada em um sistema mais "verdadeiro" do que a acumpuntura e o feng shui. Se anos de análise com aquele psicanalista famoso não tem o efeito que uma cartelinha de valium garante, isso te diz algo a respeito das premissas de cada técnica.
A medicina é particularmente pragmática. Até o século xix competiam inúmeras maneiras de lidar com os problemas dos nervos, com as doenças da alma, até que o jovem Freud inventou uma técnica muito mais efetiva do que banhos de sais e hipnose, e a psicanálise se disseminou pelo mundo. Suas idéias influenciaram (e continuam influenciando) a humanidade de maneira revolucionária, porém, quando os psicofarmácos começaram a ser disseminados nos anos 1950, a comunidade médica rapidamente abraçou essa maneira muito mais efetiva (em termos de custo, de velocidade, de resultados) de lidar com a mente. Hoje é pouco provável encontrar um psiquiatra que saiba a diferença entre Ego Ideal e Ideal de Ego, mas eles sabem direitinho pra que que serve ritalina e haloperidol.

Neuras 2


Suavisando o tom arrogante da postagem anterior, vamos deixar as coisas mais didáticas. Antes de qualquer coisa, do começo: um monte de dados não explicam nada. Todo mundo que olha pra um macaco vê que se parece (e deve ser aparentado) com um ser humano, mas essa é uma idéia recente. Os ossos de dinossauros, que abundavam em escavações desde sempre, nunca criaram teoria nenhuma, foi preciso uma abstração genial pra encaixa-los num esquema. Os mesmos dados podem ser entendidos de diversas maneiras, e é desgraçadamente complicado tentar achar nas coisas algo que justifique o que nós pensamos delas.
Aliás, é fascinante como o mundo foi (e é) visto de maneiras tão diversas e coerentes por diferentes sistemas culturais. As religiões são o melhor exemplo, mas não o único. Mesmo a tentativa organizada de sistematizar o conhecimento (que hoje atende pelo nome enganador de Ciência) já teve "verdades" bem mirabolantes. E tudo isso com os mesmos dados. Exemplo fascinante? Leia esta pérola e fique de cara com o quanto o saber medieval faz sentido.
***
Algumas nuances da perspectiva pragmática me agradam, e eu considero seriamente que o proposito atribuido ao conhecimento formata parte do que é visto como "verdadeiro", "útil", ou "científico". Exemplo: a medicina está (grosso modo) muito mais (pre)ocupada em saber como resolver os sintomas do que em entende-los. Claro que é útil entender o mecanismo de funcionamento das patologias, mas isso é definitivamente secundário. A história da aspirina é um caso disso -usada refinadamente desde 1899, só foram descobrir seu mecanismo de funcionamento no cérebro nos anos 1970. Ou o grande ganhador do premio Nobel de Medicina em 1949, o português Egas Moniz, que foi premiado por ter inventado uma cirurgia cerebral (uma versão melhorada da infame lobotomia) tão útil que é proibida hoje em dia. O fato é, tanto faz como funciona, deixava os epiléticos quietinhos (que é uma definição bacana de cura pra psicopatologias). Um de seus pacientes, no entanto, não estava curado o suficiente e baleou o médico (provavelmente devido a uma crise de abstinência).

*Anexo politicamente correto: mesmo a idéia de que todos os seres humanos são "iguais" (biologicamente a mesma espécie, a mesma coisa) é uma idéia recentíssima e não muito divulgada. Até hoje são vários os sistemas de crenças que dão status metafísico diferenciado pra homem e mulher, por exemplo, isso pra não falar nada dos que não se encaixam na dicotomia.

quinta-feira

Eu, Itararé 3


Essa briga entre os canais de tv no brasil é uma lição de pós modernidade pra quem nunca se adentrou na academia. Cai a idéia de imparcialidade e imperam as relações de poder.

Jornalismo é que nem comunismo: uma ótima idéia que não funciona.

quarta-feira

os nomes escrotos 2

Adeilton, Aerton, Alberico, Alcinda, Aldina, Altair, Alterio, Amancio, Amelho, Andraluza, Andreina, Andrelanya, Aristarco, Arlindo, Arnoldo, Auterio, Avelino, Bailon, Bailon, Belizario, Benidio, Biagio, Bismak, Cacilda, Cantidio Neto, Cizenaldo, Claudemir, Clebia, Clebson, Cleila, Cleton, Cleuton, Cleyder, Clodomiro, Corsino, Corsino, Dalvanira, Damiana, Daniane, Demerval, Devaldo Marcelino, Dilson, Dragmar, Dunia, Edemilson, Ederson, Edesio Petrus, Edilene, Edivaldo, Edivaldo, Ednilson, Elciomar, Eldo, Elenei, Elexandra, Elimar, Elimar, Emivaldo, Eraldo, Eriberto, Ermelindo, Erodiano, Eronilson Rego, Estevito, Evaneide, Evanilda, Fabiola, Flauberto, Flaviano, Flordelice, Francimar (f), Frankdener, Geisa, Gesus, Gilvanice, Gilvecio, Glaberton, Glades (f), Glauciane, Gleberton, Gonsalinha, Guaraciara, Guerlan, Guilardo, Guiomar, Helcio, Helimar, Hidely, Iclea, Icleia, Ildemar, Iracilda, Irailde, Irenildes, Irisneide, Irisneide, Isaura (m), Iva, Ivanildo, Ivanilton, Ivson, Izaira, Izaltina, Jandrei, Januar (m), Jesmeri, Joanir, Jocivaldo, Joicinara, Josafar, Josenilda, Josielio, Jucelio, Jucelio, Jucilene, Jucilene, Junia, Kellyn, Kleybe, Laurindo, Leidiana, Leidimar, Lenaide, Leodir, Leonildo, Limirio, Lindemar, Lindicea, Lindinalva, Lourival, Lucicleide, Luciene, Lussilva, Luzanira, Madson, Manfredo, Marceliso, Marinalva, Marineide, Marize, Marrussia, Mayla, Monaliza Jesus, Nadjane, Nalfran, Narivaldo, Narivaldo, Nascero Junior, Naziosete, Nelmaria, Nelreci, Niwton, Nucelio, Oriana, Orismar, Orlete, Orsis, Osmundo, Percio, Regineide, Renildo, Rosalina, Rosalino, Rosemi, Rosielma, Rosilene, Rubenildo, Sauria, Silviano, Silvimar, Sirley, Siulene, Taisaline, Teodomiro, Thelvyo, Udo, Valdelicio, Valdenio, Valdete, Vanderlene Dionisio (f), Vanderson, Vandilce, Vandilson, Vangela, Vanilda, Vantoir, Vilcon, Waldecir, Waltencir, Waltencir, Wanise, Warlei, Watilla, Welton, Welvia, Welzina, Wendel, Zaida, Zaurilda, Zenobio, Zicleia, Zuleide

os outros 5

Decidiram então que fariam uma suruba. Duas garrafas de vinho (rose) foram suficientes pros dois casais, as crianças estavam com os avós, ninguém acordava cedo amanhã, todos estavam no clima.
Quinze longos minutos depois, estavam todos satisfeitos. Se deram conta então que ninguém ali se lembrava de como se chupava uma buceta, de que se esqueceram de desligar a televisão, que todos ainda usavam meias, e dois nem tinham tirado a camisa. O único beijo de lingua tinha sido entre as meninas.
No fim, o senso de cumplicidade não vinha de terem acabado de penetrar uns aos outros, mas de terem escancarado o tédio. Muito mais que amantes, se viram como irmãos.

terça-feira

a felicidade

Teve uma festinha aqui em casa no sábado, na qual apareceram várias pessoas legais, somados aos meus hóspedes e minha namorada, pra tomar umas e ficar de boa. Eu ganhei presentes como não acontecia desde o começo da minha infância, tinha esquecido como isso é legal. Por conta dos meus convidados a gente acabou passeando bastante, e bebendo mais ainda, o que também foi muito foda, contando inclusive com um bolo (caixa de cerveja com velinhas) e cuecas britânicas de surpresa no dia, o que foi muito foda. Contrastando esses dias com o resto da minha estadia aqui, tudo ficou mais incrível ainda.
Pensando nisso enquanto eu bebericava um dos meus presentes engarrafados, cheguei a conclusão de que esse negócio que sempre falam de que a felicidade é um caminho, não um destino (e variações do tema) é uma puta mentira (na falta de uma palavra melhor). Já tive tempos muito mais alegres, mas eles se diluem em épocas, sofrem interferências na memória, e pior, não tem o contraste grave que uma cena tem.
Deve ser por isso que existem as festas, que muito mais do que bons tempos são o que ficam na memória. Ou a cerimonia do casamento, que não raro é visto como um auge mesmo em relações que duram bons anos. O caso extremo e mais elucidativo são com certeza as drogas, que deixam claro que o prazer e a felicidade são manipuláveis, lembrando velhas regras da psicologia tem alguma validade, como a de que a intensidade do reforcamento é inversamente proporcional a frequencia do estimulo. O que Cazuza disse muito melhor, falando que é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez.

o aniversário


Grilo e Evil vieram me visitar. Amanda e eu compramos um oyster mensal. Não devo escrever nada aqui tão cedo. Feliz aniversário do Grande Incêndio de Londres.

quinta-feira

os outros 4

Jaime estava cansado. Desligou o computador e foi escovar os dentes. No espelho, por causa da luz amarelada do banheiro, via seus olhos bem claros. Pensou, com um sorriso triste, pela milésima vez:
"A grande tragédia da minha vida é que meu cabelo só fica bonito antes de dormir."
Apagou a luz e foi pro quarto. Com cuidado pra não fazer barulho, entrou embaixo das cobertas e se deitou de lado com o travesseiro sob a cabeça. Sentiu Marcos o abraçando, do mesmo jeito de sempre. Quando ele passou a mão pelo seu cabelo, ouviu baixinho uma voz sonolenta dizer:
"Mas que cabelo lindo" Marcos sussurou, sem abrir os olhos.
Agora era oficial, Jaime sabia que tinha encontrado o homem da sua vida.

quarta-feira

os nomes escrotos

::Atualizando: a lista ficou tão grande que ganhou lugar próprio. Constantemente atualizada até eu arrumar um emprego melhor.

Agora trampo de telemarketing, ligando pra saber a satisfacao dos consumidores de uma certa empresa gringa no Brasil. Paga melhor, e apesar de nao ter as historias de bar, tem isso aqui oh:

A Infame Lista dos Nomes Escrotos

Azonilda
Abimael
Anadson
Allysson
Abelice

Crislaine

Dircineu
Dulcejane

Elisiane
Edenita
Elijanete
Eronilton
Enesia
Edelzuita

Fatma

Geimeson
Gisiela
Glaucione
Genivaldo

Hadovaldo
Haldrio Tafarelo

Italucy

Joanito
Jusiene Jesus
Josimarcos
Jucacia
Jogurta

Inezita

Leilamar
Lucivania
Leocir (esse confirmado que eh um homem)

Mahiba Atum
Meirilucy
Marinaide

Natalicio
Neizil Asvolinsque

Palmeir

Rudmila
Rogaciano

Sizieboro
Sabolde
Sivanildo

Teodorico

Uilton

Vanderli

Wadson

Ps. No sistema que a gente usa nao tem acentos (como nesse teclado que eu to usando), entao fiquem na curiosidade.
Ps2. Sobrenomes sao omitidos por razoes eticas, a nao ser que sejam uma combinacao bem escrota, ao que eu me defendo dizendo que a culpa nao eh minha, mas dos pais dos agraciados.

terça-feira

perfect day

such a perfect day

Neuras (pro Fábio)


Os anos noventa tiveram uma publicidade estranha pra psicologia. Bush (pai) chamou esses anos de "década do cérebro". Apesar da problemática relação do lobby psicofarmaceutico com o clã Bush (particularmente a corporação Eli Lilly, do famoso Prozac) e das promessas de glórias médicas que viriam das novas tecnologias, os anos noventa não foram particularmente diferentes do resto da história da psicologia. Nenhum Freud, nenhum Princípios de Psicologia, nenhum Manifesto Behaviorista, nenhuma Revisão do Comportamento Verbal, nenhum Modularity of the Mind. A ciência cognitiva já estava andando bem, a idéia de que o homem veio do macaco já tinha sido assimilada por alguns (poucos até hoje) no campo, mas nada disso foi (gravemente) afetado pelas imagens coloridas do cérebro.
Sem querer diminuir as grandes implicações médicas que saber qual pedaço de nervos dispara quando o rato sente um cheiro novo ou velho ou familiar (e algumas cobaias homo sapiens cujo cérebro não seja muito diferente dos livros textos) trazem, a verdade é que isso não difere muito de saber onde e qual chip dá choque dentro do iphone quando esse toca o alarme. Muito útil quando se precisa trocar uma peça defeituosa, mas bem pouco quando se quer entender o como a coisa funciona. Continua...

sábado

mais memética

A proposta de entender a informação cultural como unidades replicantes (meme) sujeitas à regras análogas as que regem os replicadores de informação pra codificar proteínas (genes) constantemente esbarra, tateia, mas nunca nomeia, a sua conclusão lógica: a possibilidade de enfim "descobrir" uma meta-estrutura na cultura (e por consequencia na sociedade, na mente).
Qualquer proposta estruturalista faz bem em aprender do exemplo que funciona, a saber, na linguística (também conhecida como "a ciência social que deu certo"). A idéia central pra se entender a linguagem humana (ao contrário da dança das abelhas, do cantos dos pássaros, etc) é a capacidade de, usando um conjunto finito de signos combinados seguindo regras (também finitas) é possível construir um conjunto potencialmente infinito de sentenças diferentes. O melhor exemplo disso é a recursividade.
Estruturalismo, sob esse foco, seria uma tentativa de mapear as regras do sistema combinatório que origina as culturas. Sob essa frase inocente já se escondem alguns pressupostos, e pra não enganar ninguém com truques baixos de retórica, vamos deixar claro:
-cem anos de antropologia e linguística mais ou menos organizadas e séculos de história atestam uma variedade imensa na forma como as populações se organizam e pensam, mas a despeito dos esforços racistas, e dos darwinistas sociais, no fundo aparentemente todas as culturas compartilham diversos traços comuns. Vários desses universais tem uma série de tentativas de explicações funcionais/evolutivas, como a teoria do auto-engano proposta por Trivers (bem ancorado na idéia de gene egoísta -mas antes que você sinta o cheiro ideológico neoliberal normalmente associado ao gene egoísta, saiba que Trivers é um cara bem à esquerda disso, na verdade ele foi um dos poucos Panteras Negras brancos), ou simples compartilhamento fisiológico do mesmo modelo de corpo, tipo coisas óbvias, como andar de pé, ou não tão óbvias, como enxergar em cores. Não ria, tem gente que acredita que as culturas variam arbitráriamente, que não existem universais, que não existe nem objetividade (ou maneira de falar sobre isso).

domingo

munich, (ou "a cozinha é grande demais")

Assisti Munich.
Gostei, esperava alguma coisa muito mais pró-israel do que o filme é. Spielberg é cachorro velho, e esse filme é particularmente escorregadio de perceber alguma intenção clara. Não que esse efeito venha de "uma exposição balanceada dos fatos", porque, convenhamos, não é o caso.
Não existe diálogo no filme, não existe uma voz pro Outro. Até a última cena todas as falas podem ser entendidas como um monólogo oscilante, hora confiantes, ora duvidosas. O único personagem constante no filme é o nazi-judeu, inútil se não visto como exemplo da desumanização que sua opinião mostra.
A história consegue tocar um pouco o ideal que (dizem) existiu nos revolucionários dos anos 1960, onde apenas um dos personagens deixa claro que só trabalha por dinheiro, e não com ideologias ou países. Todos os outros hoje seriam motivo de riso. Mas o filme iguala as falas de todos (incluindo as esperanças do protagonista mossad, que em uma cena critica um palestino por acreditar numa retomada de israel -que nunca existirá porque nunca deu indícios de se realizar, se esquecendo que ele mesmo luta por uma paz que não existe e que nunca existiu). É a mesma voz, não existe antagonismo, não existe diferença, fica-se com uma impressão infantilizante.
Mais interessante que isso é a lenta e nebulosa descoberta da própria alienação a qual estão submetidos os mossads. O protagonista começa com um completo entendimento de que se trata de uma missão que fará justiça ao atentado das olimpíadas (punindo seus arquitetos), para a gradual tomada de consciência do real processo de produção, do dano colateral, das vítimas inocentes, das consequências sistêmicas e das reais intenções do Estado israelense. Numa das melhores falas do filme, o cara (já bem desiludido) pergunta algo como "mas nos estávamos matando para substituir os líderes terroristas ou os líderes palestinos"? Afinal de contas, quando o Hamas era só um bando de árabes se explodindo em Tel Aviv eles não eram nada demais. O problema real é quando eles são eleitos, quando são legitimados pelo voto do povo e pelo mundo (que não eua-israel), em um retrospecto institucional -e por isso bem mais perigoso pra israel- do que foi Arafat.
Esse entendimento de que nada começa agora, tudo tem uma história prévia, é dada a conta-gotas no filme, que os ouvidos atentos percebem nas falas que fazem referência à conturbada criação do Estado israelense (ou você engoliu aquela historinha de que a ONU declarou e o império britânico deu israel porque tava com peninha?).
Caminho inverso do meu episódio favorito de Band of Brothers, (why we fight, parafraseando os filmes de propaganda americana da época, todos disponíveis online -eu vi o russo, que é bom pra cacete) no qual a redenção da invasão americana não veio do entendimento do processo histórico (esse cheio de interesses escusos e injustificáveis), mas sim da acidental "descoberta" dos campos de concentração. Depois de sobreviver a um mar de moralidade cinzenta, foi como se os soldados americanos se deparassem com uma barreira escura, que por contraste os aliviava dos próprios horrores cometidos até então. Os campos de concentração americanos não se comparavam. Caralho, nem os gulags eram tão do mal.
Voltando ao Munich, a ausência de uma voz americana é ensurdecedora do ponto de vista zionista. O protagonista, apesar de arriscar tudo que tem por israel, toma sem dó a atitude de ir morar nos eua. Diante da cada vez mais clara desilusão com um país -não mais uma terra prometida- em guerra, ambíguo em sua moralidade e já sem quase nenhum dos bons traços judaicos, só lhe resta desistir. O filme poderia, porque tinha espaço pra isso, ter tocado no ponto forte da questão fascista da própria existência do Estado judaico: quão diferente da alemanha ou japão totalitários (e suas ficções de pureza racial) é um governo que dá preferência à pessoas de certa descendência? Porque não se deixa claro a natureza apartheid da própria idéia de uma israel para os judeus? Frente a isso, morar em NY, que é só um pedaço de chão, é realmente um paraiso humanista.
O filme tem seus deslizes ao tentar justificar tudo o que for possível para a obtenção e manutenção de um salva-guardo pros habitantes de israel (que inclusive nem querem saber como se fazem suas salsichas, como a mãe do protagonista), e isso é belamente ilustrado por uma vitrine de uma cozinha que o protagonista sempre olha quando na frança. Em um momento, um personagem diz: "um dia você pode ter uma dessas, mas é muito caro. Sempre custa caro ter um lar." Mas bem depois, ao reencontrar sua mulher vivendo em NY, o mossad elogia a decoração da casa, ao que ela responde: "a cozinha é grande demais".