domingo

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A impossibilidade de se viver em um constante estado de frieza romântica, de fluidez metafórica, é fruto pequeno das necessidades mentirosas de se importar com a vida. Pior ainda, dos que se importam com coisas bem menores até do que a vida e nunca se calam. A completa falta de estilo poético e prazer nas entrelinhas condenam essas pessoas e as detestáveis situações que elas criam a uma turba inconsolável de mundanices enfadonhas, a caricaturas de ambições manufaturadas justamente pra inibir a improvável chance de que algum projeto de bom gosto pudesse se alojar timidamemte em meio à mesquinharias e moralismos.
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terça-feira

O islã nesse sentido é realmente um grande desenvolvimento. A ausencia da instituição do convento de freiras é uma grande vantagem em relação ao potencial de dispersão do meme. Afinal de contas, o estrago que uma mãe faz na cabeça da criança é infinitamente mais potente do que as lamurias de um bando de infelizes reprimidas sexuais que são obviamente bem pouco inteligentes.
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domingo

ocaso da possibilidade junguiana de se entender as inumeras possibilidades do ocio smartphoniano

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segunda-feira

on subtitles


It probably has something to do with the fact that when you work at something and get paid to do it, it is really hard realizing that there are people that do the same thing for free.
The case in point is subtitling. There is a whole industry that caters for the production of subtitles, and the agents in this industry are facing increasing problems. Their inability to see some of the possible solutions come from a few mental obstacles, a few shortcomings in seeing things in different ways. It is not the case that they are hard to understand or that people in this industry are less intelligent than average. Each of these shortcomings has a understandable origin and a rationale that once made sense, but they are increasingly making it hard for the industry to come to terms with its new challenges. 

1.Bad management disguised as cost cutting. 

The relative small number of subtitling companies in London can give the impression that one or two companies are representative of the industry, or that whatever they say it’s necessary for the industry is necessary for the industry, and not just necessary for this particular company. It is just like when someone says that they really like you, but they are not ready for a serious commitment. As is widely known, that only means that they do not want a serious commitment with you.
The lack of a more competitive environment can give birth to the false idea that the way things are being done by the only existing actors is the right way, or the only way things can be done. That is particularly dangerous when bad management and bad business practices end up being disguised as necessary measures, like downsizing, dividing the workload between workers who end up not having any responsibility for the end product, hiring cheap untrained staff, falling standards, etc. These are just products of bad management and business strategy, but in a scenario with no competition, the short term cuts in costs can look like a good thing for the company, something that very often turns out not to be the case.
Bad management is just bad management, it should not be confused with the way things have to be now, because of the crisis and all. Feel free to think about analogies with the whole banking crisis, or property prices in the UK, the American tea party craze,  or any other suitable comparison.

2.Piracy is not always the enemy

People working in subtitling tend to hold to the common belief that file sharing is killing the industry. While this is a complex discussion with lots of arguments from both sides, they should not blind us to the fascinating fansub scene that has blossomed alongside internet piracy.
Originating from the demand over obscure Japanese media (anime, manga, videogames) amateur subtitles, translations and adaptations have expanded side by side with the internet. From the point of view of the English speaking world, fansubbing has never transcended its niche otaku ghetto, but everyone else is aware that a big proportion of media produced in the planet is in English, and not everyone speaks it. This demand for translated material is not always efficiently explored by market forces, and in this gap the fansub phenomena expanded into being one of the main sources of translated material, especially in the developing world.
Even without the monetary aspect of it coming into play, market forces of some kind also operate in the fansub world. There is fierce competition between not just different producers, but even among different individual translations, with their varying qualities in timing, translation, when they were first available after the original show was broadcasted, etc. They even adopt practices that the official subtitling industry still has not incorporated, like giving proper credit to the individual workers in each project. This is not just good for the consumer (that can identify the differences between good and bad translators), but in the long term for the whole fansub ecosystem. It’s not like they have to invent giving credit to their workers, books have that as standard procedure since Latin translations of the Greek classics started to appear.
The usual way to look at things is just to attribute the success of unofficial subtitles and adaptations to the fact that they are free. But once you familiarise yourself with the dynamics of it, factors like how soon these translations are available and how good they are at what they do (adapting the media following the subtitling constrains) start to show how they are competing with official translations in other areas as well. Reliable fansub producers have loyal customers and high quality standards, and are able to acquire those because they have adopted practices that are lacking in their official counterparts.

quinta-feira

Importante mesmo é saber julgar bem as distâncias. Conhece-te a ti mesmo deveria ser usado não como uma ferramenta de evolução pessoal e aceitação de si, mas principalmente pra saber direitinho as partes que não se deve mostrar aos outros. Se conhecer é metade do trabalho. Estimar as distâncias entre os outros e as partes que não prestam de si é que é complicado.

sexta-feira

Manual da visita menos incômoda


A melhor coisa do mundo é passar tempo junto das pessoas que se ama. É impossível ser feliz sozinho. Amigo é coisa pra se guardar. Blablabla.
A medida que as pessoas vão envelhecendo e mudando pras próprias casas, nem sempre o sonho burguês brasileiro de ter um lar com múltiplos quartos e empregada doméstica se materializa imediatamente. Tem gente inclusive que precisa trabalhar todo dia, e eu não estou falando de bater ponto na repartição ou descolar um freela que vai dar dinheiro pra beber e viajar, estou falando de conseguir dinheiro com o próprio suor para pagar contas. Não conta de celular, gasolina do carro da mãe ou loucuras do cartão de crédito, estou falando de conta de eletricidade, aluguel, IPTU, essas coisas que gente grande faz. Tudo isso só pra poder desfrutar de uma coisa que (quase) todo mundo sempre teve, um lugar pra morar.
Que idiotice, exclama o leitor, quem seria idiota o suficiente de passar 40 horas semanais trancado num escritório só pra poder morar num lugar pior do que a casa da própria mãe? Sim leitor, dizem que se trata de uma sandice digna de um capítulo no Erasmo ou no DSM IV, mas na verdade é um costume ancestral que ainda pulsa nas veias de alguns poucos, tipo aqueles peixes que sobem corredeiras só pra poder trepar em paz. Mas isso é outro assunto. Aqui vamos tratar de introduzir alguns princípios básicos pro leitor amigo saber como se comportar nos (pequenos) domicílios dessa estranha raça de seres humanos que decidiu sair da casa dos pais.
Mas porque diabos eu preciso de um manual pra me “comportar” na casa dos meus próprios amigos? Eles gostam de mim do jeito que eu sou! Sim, claro que seus amigos (e isso vale pra parentes também) gostam de você, mas veja bem, seus amigos nunca moraram contigo. Ao longo da sua estadia na (minúscula) casa dos seus camaradas você vai inclusive descobrir que eles são ligeiramente diferentes do que costumam ser no fim de semana, na mesa do bar, e se tem tempo que vocês não se vêem, você provavelmente vai descobrir que eles são diferentes do que eram na hora do recreio. Isso não quer dizer que eles não gostem mais de você (pode ser o caso), mas que esse novo contexto pede certas... regrinhas que você talvez desconheça. Para saber mais, continue lendo.
Aqui em casa eu faço as coisas que eu quero na hora que eu quero e minha mamãe nunca reclamou! Então leitor, esse manual é justamente pra você que tem pais que te amam tanto, mas tanto, que esqueceram que o resto do mundo não te ama incondicionalmente e não te avisaram. Essas regrinhas são parte de um conjunto muito maior chamado educação (também conhecido como bons modos, maneiras, etiqueta, respeito, etc) que as vezes os pais não ensinam porque não tiveram tempo. E como sua empregada só recebia um salário mínimo e nunca teve carteira assinada, ela também não se deu ao trabalho. Educar é difícil, pode perguntar pra qualquer professor.
Mas se é tudo tão complicado assim na casa dos outros, porque eu iria sair do conforto do meu lar pra ir na casa desses chatos? E eu que sei leitor? Cada caso é um caso. No meu caso é muito simples. Eu moro em Londres, mas vivi o todo o resto da minha vida em Brasília. Isso significa que a maioria dos meus amigos ainda mora com os pais. E que quem tem trabalho geralmente trabalha no governo. Ou seja, gente que não sabe o que é pagar conta nem trabalhar. Amo tod@s. Porém, uma parcela considerável acabou tendo muita sorte nessa encarnação e nasceu com pais amorosos demais. Isso, como dito acima, é um problema quando se quer visitar os amigos não-concursados-públicos sem empregada doméstica e sem múltiplos dormitórios em seus (pequeninos) lares.
Sem mais delongas, vamos começar.
1.       A louça
Sempre que você vai passar muito tempo na casa de alguém o seu melhor amigo é a louça. A maneira mais fácil de minimizar os pequenos incômodos (ou grandes, mas sejam eles pequenos ou grandes, sempre serão vários) é lavar a louça suja. Por que a louça? Muito simples caro leitor. Todo mundo tem louça. Se seu amigo vive tão alternativamente a ponto de não precisar de copos e pratos, substitua “lave a louça” por “desça as caixas de pizza e latas de cerveja pro container de lixo da rua”. Mas via de regra seus hospedeiros (quebrados) entenderam que cozinhar em casa é mais barato do que comer todo dia na rua, e isso dá ao hóspede educado (e você) a chance de mostrar o quanto está agradecido por não estar pagando hotel. Lave toda a louça que você puder.  Insista em lavar a louça (seus amigos só negaram na primeira vez que você ofereceu porque eles são educados, esse doce é uma coisa comum entre gente educada). E se não te deixarem lavar a louça, lave a louça quando ninguém estiver olhando. Lave a maldita louça, porra!
Aqui cabem algumas observações sobre o que se entende por lavar a louça. Alguns hóspedes possuem um entendimento incompleto do que realmente quer dizer essa frasezinha tão simples. Por exemplo, lavar todos os copos que estavam na pia é um bom começo, mas se o resto da cozinha estiver soterrado em copos cheios de bituca de cigarro, isso dificilmente impressionará seus hospedeiros. Use suas incríveis habilidades de caçador-coletor e colete pratos sujos esquecidos na frente do computador. Aquela faca que caiu atrás do sofá. A caneca de café que ficou na janela. Faça um esforço, você consegue.
Igualmente digno de nota é o estranho comportamento que algumas visitas tem de lavar pratos e panelas até o limite da capacidade do escorredor de louça, como se o objetivo da empreitada fosse encher o escorredor de copos limpos, e não lavar os pratos sujos. Isso ainda é agravado pela frequente inabilidade da visita de organizar a prataria de modo a maximizar o espaço no mencionado escorredor. Novidade pra ti camarada, você não está enganando ninguém. Dê uma utilidade para todas aquelas horas de tétris que você jogou  e empilhe os copos, encaixe os pratos, enfileire as tampas de panelas, seja criativo até você começar a quebrar taças. E olha que mesmo isso vai ser visto com bons olhos, afinal você estava tão empenhado em ajudar que acabou quebrando um copinho. Errar é humano e tal. Dica de profissionais: aprenda onde se guardam os pratos, panelas, talheres, etc. Mais impressionante do que chegar em casa e ver que sua visita lavou a louça é ver que nego lavou e guardou a louça.
Mas não pode só lavar os pratos que eu sujei? Eu não vim aqui pra ficar trabalhando de empregada, por que eu tenho que ficar lavando caneca que não tem nada a ver comigo? Leitor, não é que o que você disse faz sentido? Você não sujou o copo, então não tem que lavar né? Sabe outra coisa que você não fez leitor? Você não pagou aluguel nem conta de luz... o que você está fazendo dormindo aqui leitor? Ah, você está visitando porque gosta do seu amigo né? Então, lave um pouquinho de louça que não vai gastar mais do que meia horinha do seu dia de férias, e ainda vai dar a impressão que você é uma pessoa que se importa com seu amigo, e não um cretino que tá aqui só pra economizar o dinheiro do albergue. Quem sabe no fim da sua estadia quando seu amigo falar pra você voltar logo ele esteja sendo honesto, e não só exercitando a educação que você não sabe nem reconhecer.
A seguir: ninjutsu, ou a arte de deixar suas tralhas invisíveis. Aguarde

Tao

Tao

quinta-feira

domingo

deixando um belo corpo


São poucos, muito poucos. A ideia, provavelmente proferida pela primeira vez por Oscar Wilde, de que a qualidade da obra é inversamente proporcional à qualidade da vida do autor (pensando bem, talvez ele tenha dito algo ligeiramente diferente, quem sabe se referindo ao caráter, pelo que me lembro do Retrato de Dorian Gray), me sôa como a posição ortodoxa sobre o assunto, embora eu não tenha nenhum argumento pra pensar que esse seja o caso. Não apostaria um tostão na minha opinião dos outros, quanto mais no que quer que seja essa coisa que atende pelo nome de maioria.
Mas voltando a ideia mencionada, é divertido pensar nos contrastes e nas comparações entre as vidas dos escritores. Digo escritores (apesar da ideia original tratar de artistas em geral) porque, no meu limitado imaginário carcomido pelo efeitos emburrecedores do youtube, escritores sempre foram os mais infelizes dos artistas, dados a contradizer o fascínio que suas obras provocam no público. Provavelmente porque são obrigados a detalhar (e consequentemente moldar em certo grau) as ilusões que seus admiradores inevitavelmente irão imaginar ao consumirem seu trabalho.
Todo cidadão culto, se pressionado o suficiente depois de doses encorajadoras de algum narcótico, sabe gagejar alguma anedota (invariavelmente apócrifa ou ridiculamente cliche) sobre a vidinha de algum dos pilares da literatura ocidental. Kafka era um derrotado, Proust uma mocinha delicada, Dostoyevsky na sibéria, Borges morrendo cabaço, Jorge Amado metendo receitas baianas pra engrossar livros medíocres, blablabla. Tudo muito chato.
São poucos os escritores que realmente tiveram uma existência invejável, minimamente comparáveis com o peso intelectual das seus trabalhos. Tolstoi teve toda aquela juventude matando cossacos pelo czar antes de se converter, o que deve ter rendido umas belas noitadas. Hemingway serviu nas duas grandes guerras, somado aos anos na guerra civil espanhola (onde Orwell também estava), e ainda assim conseguia escrever sobre as frivolidades dos expatriados americanos em Paris.
E depois vêm os menores, tipo Conrad que chegou a capitanear um vapor, ou Melville, que realmente serviu num baleeiro. Rubem Fonseca chegou a ser cana no Rio, mas que eu saiba ele nunca trocou tiro com ninguém, e de qualquer jeito, todos esses foram tomados por uma vida burocrática, então, claro que eles perdem de qualquer um que serviu com as tropas anarquistas. E o mesmo (de acordo com esses critérios super-objetivos) aplica-se aos que tiveram vidas invejáveis só no sentido de terem trepado horrores, tipo Vinícius ou Sade. E eu digo trepado de verdade, não como essa geração pós-freud que fala fala e não faz nada, porque afinal de contas, a fala já resolve tudo (aham).
Tudo isso pra dizer que eu achei, completamente por acaso, o escritor que teve a vida mais cabulosa de todos. Yukio Mishima. Leia o artigo da wikipedia e se veja obrigado a concordar comigo. Menciono apenas algumas pérolas: homossexual inrustido, teve um caso com a mulher que mais tarde se casou com o imperador. Desiludido com as frescuras do mundo intelectual (seu primeiro livro foi um sucesso quando tinha apenas 24 anos) começou a se dedicar à alterofilia e kendo, enquanto continuava publicando romances e poesias. Pra fechar com chave de ouro, cometeu seppuku depois de uma tentativa falida de dar um golpe de estado num quartel do exército japones, advogando em vão o retorno da autoridade divina do imperador. Seu discípulo favorito o acompanhou no harakiri depois de ter falhado três vezes em decapitar seu mestre (como parte do ritual), o que acabou sendo feito por um outro seguidor mais versado na katana.
Impossível bater isso, uma vez que os critérios objetivos (mas como não?) dizem claramente que abrir o próprio bucho com uma wakisashi depois de tentar dar um golpe de estado é definitivamente mais legal do que ter lutado na guerra civil espanhola. Peguei um livro do cabra na biblioteca, tenho até remorso de não achar bom.Se pelo menos os anarquistas tivessem ganhado, George Orwell ainda estaria no topo da lista...

terça-feira

abençoados os que estudaram na unb, porque...

MEU DEUS, EXISTE POLITICAGEM NA UNIVERSIDADE!!! QUE ABSURDO IMPENSÁVEL!!! QUER DIZER QUE AQUELES CANUDOS QUE ELES DÃO TODO O SEMESTRE NÃO SÃO AS MARCAS INDISCUTÍVEIS DA SUPERIORIDADE MORAL E INTELECTUAL DA ELITE BRASILEIRA?! ALGUÉM DEVOLVA MEUS IMPOSTOS! Ó,VEJA, O QUE FARÍAMOS SEM TI?
Sério mesmo, mas que belo exemplo de sensacionalismo barato. A UnB é um buraco zoado desde a ditadura, adivinha por quê? Porque o ensino de modo geral no Brasil é um buraco zoado. Aparentemente, rolou um apogeu iluminista até antes de 1964 no DF, mas quem entende dessas coisas é o Pedro, e como se trata de história do Brasil, evidentemente que ninguém se lembra nem divulga nada a respeito. Pelo que eu entendo das tretas universitárias (e entendo basicamente das que eu estava lá participando e queimando meu já chamuscado filme na graduação), você não precisa de filiação partidária pra causar estrago na universidade, embora isso definitivamente ajude.
Sem contar no mal gosto que é comparar a opinião de professores (que podem ter toda a razão do mundo) sobre as ingerências e incompetências de hoje em dia com as tragédias da ditadura militar. Não que a veja seja o bastião do jornalismo sério, mas mesmo com a óbvia pauta que a revista segue, igualar partidarismos ideológicos com assassinatos políticos ofende a dignidade não só das vítimas, mas também a de quem está reclamando da UnB de hoje. Afinal de contas, não é possível que esses acadêmicos estejam realmente querendo dizer que a falta de profissionalismo do atual reitor seja equivalente à tortura que foi infligida aos seus precursores.
Mais interessante seria comparar os números de artigos e livros publicados, o fator de impacto que a produção acadêmica tem, a influência dos projetos de extensão na comunidade, e comparar isso com as outras federais do país. Aí sim existiria um começo de margem pra uma avaliação decente da (suposta) decadência da UnB. Do jeito que está a coisa, a reportagem parece mais uma maneira de valorizar a autoestima dos eternos infelizes que todo ano são obrigados a pagar uma fortuna por faculdades particulares que conseguem ser (a despeito da ordem e infraestrutura de primeiro mundo) nada mais do que piadas frente à promiscuidade narcotizada que estuda numa federal. Mas claro, a veja não tem que apurar fatos ou fazer análises da realidade, tem que agradar seus leitores, logo...

sábado

vadias 2

E eis que surge, das entranhas despolitizadas dos anos 10, um "movimento" de universitári@s (e simpatizantes) que marcham indignados. Caminham pelas calçadas explicitando sua desaprovação com a detestavel insistência de tentar associar vestuário com sexo sem consentimento.
Não que exista a necessidade de alguma mudança legislativa, uma vez que as roupas da vitima não são consideradas circunstâncias atenuantes na lei escrita (ao menos no Brasil e nos paises civilizados, principalmente os abençoados com a despresença do islã). A lei escrita, no entanto, não muda o fato de que vários indivíduos continuem acreditando na idéia bizarra de que minissaias e decotes causam impulsos sexuais violentos em seres humanos armados com um pênis.
E quando esses indivíduos (não exatamente os mais brilhantes exemplares da intelectualidade humana) ocupam posições-chave nas instituições que lidam com o estupro diretamente (na polícia, nos tribunais, os médicos, os psicólogos, etc) e indiretamente (os legisladores, os líderes religiosos, os professores, etc), o meme da responsabilização da vítima pode causar o estrago que deveria ser o grande motivo de protesto.
Eu digo "deveria" porque as vezes toda a "comoção" gerada pelo "movimento" (de universitári@s caminhando pelas calçadas) passa a impressão de ter como principal mensagem algo como "não queremos mais estupro" e "mulheres podem se vestir do jeito que bem entender", que somados dão a (um pouco mais sofisticada, mas ainda assim bem óbvia) "a maneira como a mulher se veste não deveria ser usada para justificar o estupro".
Eu não sei se o leitor está seguindo o raciocínio, mas pelo menos no meu humilde entendimento, caminhadas temáticas e gigabytes de escritos em redes sociais clamando o óbvio, que de tão óbvio já é inclusive codificado na lei a décadas, é de uma irrelevância impressionante, até mesmo pros padrões de despolitização dos anos 10.

vadias

Existe certo desespero (e existe mesmo, vi com meus próprios olhos) no ser humano que enxerga moralidade na maneira que uma mulher decide mostrar suas próprias carnes. Outros preferem projetar sua própria solidão nas coxas que a menina escolheu (porque se achou bonita) revelar na noitada. A volúpia dos infelizes tem o trágico destino de não ser contagiante. Objetos sexuais têm (alguns diriam que por definição) o péssimo hábito de não responder reciprocamente à angústia (disfarçada de tesão) dos olhares aguados dos bandos de homens sozinhos.
De onde será que veio tanto desentendimento? Me vêm a cabeça a burrice somada a péssimas mães, mas nada que não possa ser adequadamente entendido dentro da máxima de que o mau gosto e a falta de educação ainda vão causar o fim da civilização.

segunda-feira

os outros

E na trepada de despedida fez questão de passar o grosso do tempo lhe dando uma boa chupada. Uma semana longe dela, e mais importante que isso, dela longe dele. Dessa vez não era visita familiar nem viagem a trabalho, era uma semana de agito com a amiguinha que não escondia que gostava dela. E por isso mesmo a bela chupada de despedida: se sentia como o cowboy no final do filme que ao ver o vilão desarmado a seus pés, dispensa seu revólver pra mostrar em igualdade de condições quem é o melhor. Se sentiu macho pra caralho.

quarta-feira

os outros

-Mas pelo menos me diz, o que ela tem que eu não tenho?
-Mas que saco, por que você continua insistindo nisso, já falei que não tem nada a ver
-Fala porra, responde a minha pergunta
-Beleza então. A diferença é que você eu já comi.
-Caralho, mas que romântico, hein, seu escroto
-Olha, eu já falei que sinto muito. Mas se você quiser discutir, é melhor você entender logo de uma vez que o que tu tá chamando de escroto agora é exatamente o que você achava romântico até outro dia. Lembra que você achou lindo quando eu larguei aquela tua amiguinha no mesmo dia em que eu te conheci? Lembra que você achou o máximo que eu te contei tudo assim, na lata?
-Mas eu achava que comigo fosse ser diferente, que fosse
-E foi porra. Foi escroto com ela e romântico contigo. Agora é escroto com você e vai ser romântico pra outra. A diferença é o ponto de vista. Escroto é o romântico dos outros.

segunda-feira

politicas publicas de quando eu dominar o mundo,



Esses governos de hoje em dia estão de sacanagem. Querer que um casamento, uma certidão de nascimento e um cadáver compense por toda a escrotidão do sistema é fazer pouco caso da famigerada política romana.
Primeiro porque a vaga idéia de que mataram Osama num tiroteio no meio do fim do mundo não é nem um pouco empolgante. Os velhos imperadores teriam a decência de capturar o cabra vivo, envenená-lo um pouquinho e pessoalmente sangrar o infeliz no meio do coliseu de Roma. Isso sim daria um pouco de significância às centenas de milhares de mortes atribuidas ao falecido. Não é a tôa que a civilização deles durou mil anos.
A falta de contrapartida ritualizada do poder exercido pelos lideres contemporâneos é das grandes ameaças à ordem estabelecida. E péssimo entretenimento. Eleições são bacanas e tal, mas são irrisórias se comparadas com as antigas cerimônias de admissão do poder dos poderosos.
E segundo, cadê meu pão?

domingo

Eu, Itararé

Não fazer as coisas por causa dos outros é um ótimo jeito de se enganar pensando que teria feito sozinho.

quinta-feira

voi ch'intrate: caixa preta

Antes de mais nada, é necessário se livrar da idéia de que é preciso entender como as coisas funcionam pra fazê-las funcionar. Você nem suspeita dos detalhes de como a eletricidade flui entre os transistores do seu computador, mas isso não te impede de usá-lo. Ou de como seu cérebro decodifica essas luzes na sua frente que você lê sem esforço. Certas atividades são tão notoriamente difíceis de entender que geralmente performa-las é mais fácil do que tentar explicar, como andar de bicicleta, ou desenhar.
Tudo bem então, explicar certas coisas é dificil, e daí? Qual o problema em tentar entender, mesmo que as explicações sejam meio problemáticas a princípio?
O problema das "explicações" precoces é que quando se trata de explicar uma prática, elas geralmente vêm acompanhadas não só de descrições do coisa, como também de prescrições. O melhor exemplo são as gramáticas que usam na escola. Além de não explicar como a língua funciona, prescrevem uma série de regras que não fazem nenhum sentido na maior parte dos contextos de uso natural da língua.
Na psicoterapia é necessário estar sempre atento para a influência que as idéias do terapêuta exercem nos vários aspectos do trabalho. E elas são onipresentes. É preciso sempre lembrar que, apesar das concepções teóricas serem o que possibilita a existência da psicoterapia, elas devem sempre estar submetidas à demanda do paciente.

quarta-feira

voi ch'intrate


Nada disso aqui vai fazer sentido da primeira vez, e provavelmente nem na segunda. Quem sabe o leitor precise de um pouco de literatura em psicoterapia também, especificamente psicanálise, sistêmica e quem sabe um pouco de Rogers. Filmes americanos sobre terapia/psicologia vão mais atrapalhar do que ajudar, fique longe desses. E já que estamos falando em ficar longe de, não leve muito a sério os livros de psicoterapia também.
De preferência tenha um pouco de experiência clínica, embora isso não seja essencial de modo algum. Quando alguém escreve que o leitor precisa ter experiência em alguma coisa (ou vivência, ou ter sentido na pele, ou ter estado lá pra ver com os próprios olhos, etc), o que ele quer dizer é que ele não é articulado o suficiente pra explicar o que quer que seja que ele queira explicar, ou que o leitor não é inteligente o suficiente pra entender. Dito isso, talvez eu não seja articulado o suficiente pra me fazer entender. De todo modo o leitor pode se confortar com a garantia de que as idéias que serão expostas aqui não tem como ser vistas em qualquer outro lugar, o que quem sabe compense a dificuldade de entender.
Outro jeito de jogar a culpa do texto ilegível no leitor é exigir mais leitura prévia ainda, de preferência sobre assuntos completamente desconexos que ninguém nunca lê juntos. Como essa estratégia memética é boa demais para ser desperdiçada, leia também Foulcault, Marx, Wittgenstein, aprenda java script, leia sobre a parte mais chata e cretina da gerativa, Lakoff, Ginzburg, Reich, Simmel, Moscovici, Nietzsche, Taleb, Eco e não leia o Dennet -porque se ele entendesse de clínica ele provavelmente já teria tido essas idéias. Melhor ainda, não leia nada disso (menos ainda esse vazio aqui), clique aqui e fique de boa.
Não existem fatos morais, existem interpretações morais dos fatos. Sem entender essa pequena pérola do Crepúsculo do Bigodão, não existe esperança de entender nada sobre o ser humano.

Povão

Fhc é um zumbi político. Já desde 2003, quiçá antes. Se não fosse pelo PIG, nem as enfermeiras do asilo lhe dariam ouvidos. Completamente irrelevante pra realidade política atual, o príncipe dos sociologos amarga hoje em dia o fato de que os vencedores é que escrevem a história. Qualquer que tenham sido seus méritos como presidente por oito anos, não é negocio pra ninguém relembra-los em bom tom.

O PT, que sempre antagonizou ferozmente todo governo que não do próprio PT, não tem dificuldade em repetir a mesma história anti-privatização, que não fazia sentido na época, e menos ainda hoje em dia quando os resultados são óbvios pra qualquer um com celular. O mesmo pros partidécos de esquerda.

E a "direita" tambem nunca foi grande fã do morto-vivo. Não sei exatamente por que motivo, se por alguma ação de governo como a Lei de Responsabilidade Fiscal (que diminuiu um pouco o poder dos coronéis e a loucura administrativa do executivo), ou só uma saudável suspeita de que o culto à personalidade acabaria convencendo o próprio adorado a não sair mais da política. Se os colegas do PMDB maranhense tivessem a ambição que Serra, Alkmin e o resto dos tucanos paulistas tem, quem sabe o Brasil não tivesse na sua quinta ou sexta década de ser parasitado pelo Sarney.

Eis que então fhc decide que não é suficiente ser só irrelevante, é necessario justificar intelectualmente o porquê de ninguém prestar atenção no que ele pensa. Escreve uma longa e maçante pseudo-análise da realidade política do Brasil. Alguns atribuem ao texto um academicismo impenetrável, como um artigo de sociólogo. Pouco provável, porque a sociologia é um corpo teórico que embasa suas hipóteses de acordo com dados empíricos. Nada disso existe no texto. Evidentemente que prestar atenção em pesquisas, números e fatos não é o forte do ex-presidente.

Considerar esse folhetim como um mapa estratégico para a oposição também é de gosto duvidoso. Em uma das suas brilhantes considerações práticas sobre o que fazer, fhc diz que "Mais ainda: é preciso persistir, repetir a crítica, ao estilo do "beba Coca Cola" dos publicitários." Não so é infantil, raso, ofensivo a inteligência do eleitor, como meramente ecoa o que o PIG vem fazendo sem sucesso desde 2003. E olhe que o principe está falando de como se conquista a parte de educada do Brasil, porque o Povão, esse só deve entender esmola ou chicote.

Uma dica para o ex-presidente: sempre que o senhor se sentir mal quando ouvir alguém repetir que houve compra de votos para a aprovação da re-eleição, ou que o esquema de privatizações foi feito com cartas marcadas para grande prejuízo do contribuinte, lembre-se que seu governo, em especial seu engavetador-geral, é que impediu as investigações que resolveriam o assunto. E convenhamos, chamar sua brilhante descoberta do poder das medidas provisórias de "modo lulista de governar" é de uma modéstia inacreditável.

O miolo do texto é confuso e desconexo, mas não o suficiente para quem entende de onde os memes que fhc reproduz vem. A tara com o raciocínio de redes de Castells; a movimentação "grass-roots" da militância que elegeu Obama; a idéia de que a internet propiciou as inquietações no mundo árabe; e a óbvia noção de que o povo entende a política pelos seus resultados cotidianos, e não por abstrações esdrúxulas sobre ideologias. A originalidade do autor assusta mesmo o mais ardente defensor do príncipe, e sou obrigado a lembrar que quando o PIG (desimpressionantemente) divulgou que fhc era a favor da descriminalizacao das drogas, a Economist tinha manifestado a mesma opinião na mesma época...

A única parte do texto que poderia ser levada a sério como um documento de oposição é um parágrafo que trata das arcanas complicações de política monetária do governo, como juros, dívidas e movimentações financeiras obscuras. O grande problema desses pontos (além da verdadeira dificuldade do leitor de entender o que diabos o príncipe quer dizer) é que o ex-presidente mandou nos oito anos nos quais o Brasil teve os piores juros, dívidas e movimentações financeiras obscuras. Querer passar uma imagem de saneamento econômico usando fhc como garoto propaganda é como tentar usar o ex-presidente lula para promover a educação.

A verdade é que o texto é muito longo e mal escrito. O trecho do Povão é realmente o núcleo desse folhetim, e a repercussão pela internet (porque claro que o PIG não divulgaria essa pérola da velha elite politica) dessas poucas linhas é completamente adequada. O único ajuste que eu faria a esse recorte seria a inclusão de uma frase duas linhas acima, onde o príncipe constata que no Brasil "As oposições se baseiam em partidos não propriamente mobilizadores de massas." Um verdadeiro testemunho à profundidade do intelecto de fhc.

Bônus -minha frase gigante favorita dessa verdadeira flor do lácio, digna de um imortal:

"Antes de especificar estes argumentos, esclareço que a maior complexidade para as oposições se firmarem no quadro atual comparando com o que ocorreu no regime autoritário, e mesmo com o petismo durante meu governo, pois o pt mantinha uma retórica semianticapitalista não diminui a importância de fincar a oposição no terreno político e dos valores, para que não se perca no oportunismo nem perca eficácia e sentido, aumentando o desânimo que leva à inação."

sábado

futurologia

A grande marca da sociedade moderna é a completa dominância da concepção de tempo linear. Isso não é pouca coisa. O abandono da idéia de tempo como um círculo, como um ciclo, como uma espiral, é um desenvolvimento que marca o abandono das mitologias, das maneiras de tentar domestificar o tempo com uma historinha confortavelmente previsível.
As últimas a cairem ainda resistem em bolsões menos racionais, como a escatologia judeo-cristã-maometana, as variações da revolução do proletariado, e as cômicas novas eras (cada vez com uma nova data, um novo profeta, um novo calendário), mas de modo geral o indivíduo educado não gasta muito tempo repetindo essas sandices. Esqueceram de trocar a água da era de aquário nos anos sessenta, malditos hippies preguiçosos.
A aceitação da impossibilidade de se prever o futuro, de entender que a história é complicada demais para aceitar programações ou planejamentos muito elaborados, é um fenômeno da modernidade em pé de igualdade com as grandes lições de humildades do pensamento ocidental. O modelo heliocentrico, o ser humano como nada mais que um tipo de macaco, a idéia de motivação inconsciente (e as hipóteses sexuais freudianas que inauguraram isso), parte do Kitocidenatal moderno. Mais sobre ele outro dia.

BRAS CUBAS CAPÍTULO LXVII / A CASINHA

A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria à porta; — dali para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso, sem leis, sem instituições, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas, — um só mundo, um só casal, uma só vida, uma só vontade, uma só afeição, — a unidade moral de todas as coisas pela exclusão das que me eram contrárias.

domingo

os outros

-O negócio é que depois que você perde alguém a segunda coisa que todo mundo fala é que a sua vida não precisa terminar também, que é preciso seguir em frente, que uma hora aparece alguém especial. Logo depois essas mesmas pessoas começam a te olhar feio quando te veem acompanhado. Eu posso ser velho mas não sou idiota, eu percebo. Me olham como se eu devesse alguma coisa pra alguém, como se eu tivesse escolha. Eu não escolhi começar a gostar de outra mulher agora, eu não escolhi que o câncer ganhasse depois de dois anos de hospital. O que eu escolhi foi não me esconder no escuro, escolhi não apressar minha própria morte. Eu sei como essas coisas funcionam, trinta anos casado, sem filhos, aposentado: estatisticamente eu sou um homem morto. Eu vejo isso com meus próprios olhos, já tem tempo que todo mês tem velório de conhecidos, as vezes não dá nem pra ir em todos porque as datas coincidem. Você acha engraçado? Se quiser rir de verdade você devia era ver as caras das velhas quando entendem que a minha morena não é neta nem filha nem enfermeira. Primeiro é a surpresa, depois a inveja, e finalmente o desprezo. Um desprezo rancoroso, silencioso, com o canto da boca, com as rugas da testa, o pescoço franzido. Não me dá raiva nem pena, mas eu sinto vontade de ir embora, de ir gastar meu (pouco) tempo em outro lugar. Não é como era no hospital. Lá (eu) tinha muito mais vontade de fugir, mas não queria ir sozinho, queria que ela fugisse comigo, deixasse os tubos, os fios, os médicos, os lençóis. Queria que ela viesse pra casa pra vida continuar como sempre. Agora eu sei que tudo pode acabar a qualquer dia, mas não me incomodo com isso. Me incomoda passar o pouco que me resta olhando tubos, médicos, e esses rostos envelhecidos e pequenos, e fico feliz quando penso que não vou. A melhor coisa que pode acontecer na vida de um velho sozinho é uma morena, mesmo se ela aparecer depois de duas semanas do enterro da sua mulher.

doxa 5


A mera existência de uma potência imperial é um dos grandes empecilhos à democracia local. Tudo e mais um pouco é justificado em função da potência imperial. Ditaduras são criadas e mantidas em resposta à ameaça da potência, no cenário frio onde "guerra é paz". Regimes igualmente escrotos são financiados estrategicamente pela potência por serem aliados contra quem se opõe ao império. A autodeterminação do povo é proporcional à distância dos interesses do império.
Cuba só consegue justificar a desgraça que é por causa da ganancia americana. Taiwan só consegue ser o que é (com dinheiro americano) por conta de Pequim. Barbáries árabes continuam graças a Israel e Irã.
Mas o melhor exemplo tem que ser o Afeganistão, que é um inferno desde os persas, passando por Alexandre, mais gregos, uns (vários) outros indianos, chineses, mongóis, paquistaneses, árabes, russos, ingleses, russos de novo (dessa vez soviéticos), e americanos com uma pitada inglesa. Os nativos já devem instintos adaptados pra guerrilha por conta da seleção natural. Quem quer que consiga ter passado os genes ao longo dos últimos 3 mil anos naquele buraco teve que ser carne de pescoço. Se um dia acharem predisposição genética pra revolta armada, eu aposto que vem dali.

doxa 4

Substitua "puritanos perseguidos politicamente durante a guerra civil inglesa" por "judeus perseguidos durante a segunda guerra mundial na europa". Substitua "destino manifesto" por "terra prometida". "Expansão da colônia pro oeste selvagem" por "expansão dos assentamentos pro leste (também meio selvagem)". Troque "nativos americanos armados com arcos e flechas" por "árabes armados com pedras e bombas caseiras". "Sétima cavalaria" por "mossad". Aposto que o leitor consegue passar horas pensando em outros paralelos.

F34.1 – 300.4

quarta-feira

Eu, Itararé

Sempre tem alguém que não entende.

inside london xiii


Fui devolver uns livros na biblioteca. Sem nenhum motivo particular pra ler outra coisa, acabei pegando uns gibis do batman pra não perder a viagem. A bibliotecária reparou no que eu estava levando pra casa e prestativamente me apontou que tinha "mais desses alí atras, junto com naruto e os outros mangás". Senti uma pequena dose de vergonha espetando meu peito. Não tive outra opção que não voltar na sessão de romances e levar uns clássicos.
Alguém mais exaltado poderia disso construir toda uma gênese apócrifa pro nascimento da alta cultura, toda ela baseada em pequenas espetadas de vergonha ante o julgamento certeiro de mulheres pouco impressionadas com seu mal gosto e falta de formação intelectual. Confúcio mesmo estava na boa lendo dragon ball z e jogando bola, quando de repente percebeu um grupinho de meninas virando os olhos de tédio. Sem outra opção, o coitado teve que escrever toda aquela porra na esperança de se redimir pras mulheres que ele nunca comeu nem nunca leram nada dele.
Repita o último parágrafo com figuras históricas aleatórias. Recheie de piadas anacrônicas. Quando for citar algum grego substitua menininhas por mancebos. Ache graça. Repita até rir.

quinta-feira

Visitas demais pra escrever. Existe sempre o delírio paranóico de que alguém possa vestir alguma carapuça ou se ofender gravemente por alguma coisa. Um delírio deveras narcisístico, mas todo paranóide é no fundo um megalomaníaco narcisista. De qualquer modo, os conhecidos raramente leem isso aqui quando não tem nada pra fazer em casa, quem dirá quando em viagem em Londres. Mas como eu disse, delírio paranóide, igual ilusão de ótica, não se desfaz quando racionalmente (ou mesmo empíricamente) desprovado. E a casa é pequena, se eu tivesse pelo menos um quarto de hóspedes dava pra correr um risco. Não que aqui sempre se publique picuinhas pessoais potencialmente ofensivas a quem é íntimo o suficiente pra dormir na minha casa, mas sabe como é, pessoas dormindo na sua casa invariavelmente (mesmo as que dormem no sentido mais íntimo da palavra) inspiram reflexões que questionam uma série de protocolos da relação civilizada.

quarta-feira

dos rótulos 3

Qual a tara com a idéia de estereótipos sociais?

A idéia de que parte considerável da identidade individual é composta de categorias generalizadas de exemplos experienciados ao longo da vida é extremamente problematica empiricamente. Pior ainda quando a ideia é de que a "mídia" cria estereótipos que vão definir as aspirações e motivações das pessoas.

O primeiro grande problema é teórico: afinal de contas, por que existem os estereótipos que existem hoje e não outros? O que determina os estereótipos? A explicação comum é a de que os estereótipos de hoje são frutos de um processo histórico. A verdade é que isso não explica nada. Se a subordinação de gênero que existe hoje é fruto de um processo histórico, o que causou o estereótipo de genero no passado? É um reductio ad absurdum que satisfaz mentes menos inquisitivas ou atores que se beneficiam da desinformação causada pela idéia do poder causal de estereotipos sociais (mais sobre isso outro dia).

O segundo problema é que a idéia de causação social por estereotipos nao da margem para mudancas sociais. Afinal de contas, se a identidade e motivacoes do sujeito sao causados por estereotipos socias, por que alguem desviaria do padrao estabelecido pelo estereotipo? O que faria o individuo desviar do estereotipo? E se existe algum outro fator (ou mais de um) influenciando o individuo, quao grande eh essa influencia? Maior do que a dos estereotipos? Afinal de contas, existe alguma maneira de testar empiricamente a idéia da influência dos estereótipos sociais?

O terceiro problema é visto como apenas um detalhe técnico nos circulos acadêmicos: os estereótipos sociais são falsos, pura e simplesmente. Mulheres dirigem ônibus e caminhões, homens casados se assumem homossexuais a despeito das pressões em contrário, existem milionarios negros e nem todo asiático sabe artes marciais.

Quem sabe a idéia de causação da personalidade pelos estereótipos sociais seja baseada em pessoas com problemas de percepção, com dificuldades naquela parte da mente que não só percebe o mundo mas também imagina o mundo de maneiras novas. Se for esse o caso, é fácil ver o sentido nesse grupo de idéias, elas não passam de idéias para idiotas.

terça-feira

vazios vi

o sujeito que vê, com os próprios olhos, a vida, a vida como possibilidade de aventuras, como possibilidade de relações, a vida como conhecimento, passar batido, passar do ladinho, e o sujeito conseguiu se colar na parede de modo a evitar que o trem da vida o atropelasse
...

e o sujeito ali, sentindo o trem rasgando o vento atras de si, a vida fungando em seu cangote como uma onça prestes a dar o bote, ou como uma onça bocejando depois de ter comido demais. mas a vida não é a onça, a onça é o fim. a vida era o trem, e a frente do trem já passou, se agora o sujeito tentar sequer encostar de novo na vida, vai se machucar, vai se ralar, e muito provavelmente nem vai conseguir embalo o suficiente pra subir no trem, quanto mais sentar na janela.

depois que o trem passou, fica o vazio e o vento frio sopra. no chão, ainda brilhantes na luz do poente, os trilhos mostram o caminho que vai além do horizonte, e não ha muito o que fazer que não seguir adiante, caminhando em passo bom mas sem pressa, sabe-se-lá até onde o sujeito vai ter que gastar suas solas. mas ainda é cedo, o trem ainda passa rasgando nas costas, a fumaça é escura e o barulho é insuportável.