quarta-feira

Eu, Itararé

Sempre tem alguém que não entende.

inside london xiii


Fui devolver uns livros na biblioteca. Sem nenhum motivo particular pra ler outra coisa, acabei pegando uns gibis do batman pra não perder a viagem. A bibliotecária reparou no que eu estava levando pra casa e prestativamente me apontou que tinha "mais desses alí atras, junto com naruto e os outros mangás". Senti uma pequena dose de vergonha espetando meu peito. Não tive outra opção que não voltar na sessão de romances e levar uns clássicos.
Alguém mais exaltado poderia disso construir toda uma gênese apócrifa pro nascimento da alta cultura, toda ela baseada em pequenas espetadas de vergonha ante o julgamento certeiro de mulheres pouco impressionadas com seu mal gosto e falta de formação intelectual. Confúcio mesmo estava na boa lendo dragon ball z e jogando bola, quando de repente percebeu um grupinho de meninas virando os olhos de tédio. Sem outra opção, o coitado teve que escrever toda aquela porra na esperança de se redimir pras mulheres que ele nunca comeu nem nunca leram nada dele.
Repita o último parágrafo com figuras históricas aleatórias. Recheie de piadas anacrônicas. Quando for citar algum grego substitua menininhas por mancebos. Ache graça. Repita até rir.

quinta-feira

Visitas demais pra escrever. Existe sempre o delírio paranóico de que alguém possa vestir alguma carapuça ou se ofender gravemente por alguma coisa. Um delírio deveras narcisístico, mas todo paranóide é no fundo um megalomaníaco narcisista. De qualquer modo, os conhecidos raramente leem isso aqui quando não tem nada pra fazer em casa, quem dirá quando em viagem em Londres. Mas como eu disse, delírio paranóide, igual ilusão de ótica, não se desfaz quando racionalmente (ou mesmo empíricamente) desprovado. E a casa é pequena, se eu tivesse pelo menos um quarto de hóspedes dava pra correr um risco. Não que aqui sempre se publique picuinhas pessoais potencialmente ofensivas a quem é íntimo o suficiente pra dormir na minha casa, mas sabe como é, pessoas dormindo na sua casa invariavelmente (mesmo as que dormem no sentido mais íntimo da palavra) inspiram reflexões que questionam uma série de protocolos da relação civilizada.

quarta-feira

dos rótulos 3

Qual a tara com a idéia de estereótipos sociais?

A idéia de que parte considerável da identidade individual é composta de categorias generalizadas de exemplos experienciados ao longo da vida é extremamente problematica empiricamente. Pior ainda quando a ideia é de que a "mídia" cria estereótipos que vão definir as aspirações e motivações das pessoas.

O primeiro grande problema é teórico: afinal de contas, por que existem os estereótipos que existem hoje e não outros? O que determina os estereótipos? A explicação comum é a de que os estereótipos de hoje são frutos de um processo histórico. A verdade é que isso não explica nada. Se a subordinação de gênero que existe hoje é fruto de um processo histórico, o que causou o estereótipo de genero no passado? É um reductio ad absurdum que satisfaz mentes menos inquisitivas ou atores que se beneficiam da desinformação causada pela idéia do poder causal de estereotipos sociais (mais sobre isso outro dia).

O segundo problema é que a idéia de causação social por estereotipos nao da margem para mudancas sociais. Afinal de contas, se a identidade e motivacoes do sujeito sao causados por estereotipos socias, por que alguem desviaria do padrao estabelecido pelo estereotipo? O que faria o individuo desviar do estereotipo? E se existe algum outro fator (ou mais de um) influenciando o individuo, quao grande eh essa influencia? Maior do que a dos estereotipos? Afinal de contas, existe alguma maneira de testar empiricamente a idéia da influência dos estereótipos sociais?

O terceiro problema é visto como apenas um detalhe técnico nos circulos acadêmicos: os estereótipos sociais são falsos, pura e simplesmente. Mulheres dirigem ônibus e caminhões, homens casados se assumem homossexuais a despeito das pressões em contrário, existem milionarios negros e nem todo asiático sabe artes marciais.

Quem sabe a idéia de causação da personalidade pelos estereótipos sociais seja baseada em pessoas com problemas de percepção, com dificuldades naquela parte da mente que não só percebe o mundo mas também imagina o mundo de maneiras novas. Se for esse o caso, é fácil ver o sentido nesse grupo de idéias, elas não passam de idéias para idiotas.