terça-feira

jesus salva vidas


Jesus ama até as feiosas, mas no máximo rola um boca-a-boca.
Mais que isso só com o Diabo.

garçonagens 3

-Do you know how to get to ***?
Me disse o bêbado enquanto eu botava os bancos sobre as mesas.
-Sorry, I don't.
Respondi eu, genuinamente inocente.
-Well, thanks for nothing.
Respondeu o bêbado, às minhas custas fazendo um charminho pra uma menina que o acompanhava.
-Yeah, you too.
Respondi eu, com uma expressão entre o desprezo e o sorriso irônico.
-Touche.
Exclamou sorrindo o bêbado, que afinal tinha senso de humor.

garçonagens: eu e o cara mais interessante do mundo

Outro dia tive uma epifania enquanto polia talheres no pub: pensei no que queria da vida, no que tinha feito até então, e onde eu tinha parado por conta disso. Tentando não ser muito específico pra mim mesmo, pensei nos meus muitos interesses -e como nenhum está sendo satisfeito da forma que eu gostaria. Pensei numa solução genérica pra isso, em uma maneira alcançável de me tornar algo que eu gostaria de ser, e resolvi ser a pessoa mais interessante do mundo. Isso me pouparia o trabalho de ficar reeditando meu CV, de ser desconsiderado por minha formação ser de fora da Inglaterra, e de ter chegado nessa ilha em meio a pior crise desde os anos 70.
Mas afinal de contas, como é a pessoa mais interessante do mundo? Ela tem muitas histórias, provavelmente de viagens. Conheceu diversas figuras notáveis ao redor do mundo. Um senso de humor impecável, só nublado pelo seu timming e bom gosto. Cultura geral, raciocínio afiado e ginga -a pessoa mais interessante do mundo dança bem, como os deuses nietzschianos.
Nesse momento do delírio me imaginei conversando com esse indivíduo tão peculiar. Rapidamente percebi que se tratava de um chato. Não parava de falar, sempre tinha opinião sobre tudo, adorava exibir suas qualidades, não consegui lhe contar uma piada sequer. Não sei se me tratava bem por hábito ou gosto. Evidentemente que a pessoa mais interessante do mundo não era ele, minha idealização futura imperfeita. O que mais interessa as pessoas, o único assunto universalmente popular é o que elas querem dizer, são elas mesmas. Alguém que fosse interessante para todos seria bem mais simples do que eu antes pensara: se trata apenas de um bom ouvinte.
Esse objetivo de repente aparece como bem concreto e familiar. É hora de voltar para a clínica.

Eu, Itararé 2

Encher a cara na night é como usar casaco quando está frio.
Fazer o que?

garçonagens: as reflexões pós double shift

Porque de tédio eu entendo.
Nascido e criado em Brasília, persevero no tédio.
Tédio é diferente de exaustão.
Da exaustão não se cria nada.
...
Porque afinal, ainda não estar bêbado não quer dizer que já não se esteja burro. Pra caralho.
...
Ninguém aqui ouve Beatles.
Camden é uma fortuna.
Johnny Rotten é garoto propaganda de uma marca de manteiga facista.
As negras não necessariamente tem bunda, e rebolam menos que as italianas.
Bunda grande aqui é xingamento.
Os caras devem ter pau pequeno.

garçonagens: psicoreceita

Inventei um joguinho mental pra não me abalar pela trilha sonora do buteco.
Imagino que estou na festinha -não sei de aniversário de 13 anos, ou pior, uma dessas festas desconfortáveis que todo mundo sabe o motivo do porquê mas ninguém fala a respeito. A dona da festa é a Juju. Ela está carequinha e muito pálida (não sei se branquinha ou negra pálida, não sei qual dá mais dó), já perdeu até as sombrancelhas -mas sua mãe as desenhou com maquiagem pra festinha. Juju tem leucemia. O segundo transplante de medula, duas semanas atrás, também foi rejeitado pelo seu corpinho frágil. Juju dança com as amiguinhas, todas terminando a infância, prontas pra entrar na parte da vida que toda menina dessa idade tanto anseia, mas nenhuma mais do que Juju. Ela, por algum motivo que eu ainda não consegui ter claro na minha mente, me considera um convidado de honra, e frequentemente vem ao meu encontro ver se eu estou gostando da festinha. Eu, com um copo plástico de guaraná quente na mão, não tenho como não sorrir e balançar a cabeça. Juju está particularmente orgulhosa das músicas que tocam na sua festinha, passou a semana inteira escolhendo junto às amiguinhas.
É desse jeito que eu me engano pra compreender e aceitar a trilha sonora do buteco. Funciona. Outro dia quase comecei a dançar sozinho.

domingo

inside london vi

o dia de hoje foi assim: acordei as dez, entrei no baú as onze, mas só depois que a máquina de dinheiro me negou dez pounds. conta muito negativada, empréstimo vencendo, sabe deus lá quando entra o meu salário. voltei em casa, abri a porta -surpresa! mas nenhum gringo com minha mulher, é o amor- peguei as moedas do pratinho e peguei o ônibus. 11:10, dez horas atrás estava nesse mesmo coletivo, 134 north finchley pra tottenham, só que voltando pra casa depois do inferno do sábado a noite em carnaby street. black sabbath na orelha, pronto pro fim dos dias. tom jobim só funciona quando tem sol. agora chego em casa, meia noite -hoje terminou cedo- em casa teve um almoção com uma galera, mas pra minha surpresa só me sobrou uma latinha de stella, e isso porque nego foi bróder.
resolução de exilado: ou começo o ano que vem estudando com bolsa nessa porra, intelectual bancado, ou tento a sorte fora dessa ilha de merda. quem sabe até em brasília.