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quarta-feira

inside london xiii


Fui devolver uns livros na biblioteca. Sem nenhum motivo particular pra ler outra coisa, acabei pegando uns gibis do batman pra não perder a viagem. A bibliotecária reparou no que eu estava levando pra casa e prestativamente me apontou que tinha "mais desses alí atras, junto com naruto e os outros mangás". Senti uma pequena dose de vergonha espetando meu peito. Não tive outra opção que não voltar na sessão de romances e levar uns clássicos.
Alguém mais exaltado poderia disso construir toda uma gênese apócrifa pro nascimento da alta cultura, toda ela baseada em pequenas espetadas de vergonha ante o julgamento certeiro de mulheres pouco impressionadas com seu mal gosto e falta de formação intelectual. Confúcio mesmo estava na boa lendo dragon ball z e jogando bola, quando de repente percebeu um grupinho de meninas virando os olhos de tédio. Sem outra opção, o coitado teve que escrever toda aquela porra na esperança de se redimir pras mulheres que ele nunca comeu nem nunca leram nada dele.
Repita o último parágrafo com figuras históricas aleatórias. Recheie de piadas anacrônicas. Quando for citar algum grego substitua menininhas por mancebos. Ache graça. Repita até rir.

john lennon on benefits 3

E toda essa introdução da assistência social britânica não serve pra muita coisa que não contextualizar o leitor às prováveis linhas que se seguirão sobre o meu atual ganha-pão.
Você veja bem, essa dinheirama que o governo gasta com os pobres ingleses inevitavelmente começa a chamar a atenção do contribuinte. Esse dinheiro não está exatamente sendo usado pra acabar com a desnutrição crônica ou financiar tratamento de água pra bairros com esgoto a céu aberto. Essa grana é usada pra vagabundo viver na zona 1 de Londres, o que até antes da crise só perdia pro centro de Tóquio como metro quadrado mais caro do mundo.

****

O trampo tem um bando de gente bizarra. Na verdade chamar de bizarra é só uma tentativa de atribuir alguma característica saliente o suficiente pra emergir essa situação além do lodo da mediocridade, mas é uma tentativa que não vai muito longe. Um escritório cheio de gente medíocre, como todo escritório, eu suponho.

Em tese se trata de uma empresa que oferece cursos pra quem vive de dinheiro da assistência social. Teoricamente são cursos profissionalizantes, mas na verdade os "cursos" tem um caráter muito mais auto-ajuda do que qualquer outra coisa. Os nomes dos cursos ajudam a entender o nível da coisa. Os mais populares são "finding and getting a job", "doing an effective job search", "six weeks job search support". Os clientes das empresas são os "job centres", que são orgãos do governo que administram a mesada dos desempregados e tentam fazer os caras voltarem a trabalhar. Job centre, aliás, eh um nome tão Orwelliano que parece de sacanagem. Bom pra eles que se for pra generalizar a cultura geral da populacao inglesa, apenas um dos funcionarios do escritorio sabia o que era 1984. Não estou falando de ter lido, estou falando de saber que existe e que se trata de algo ligeiramente importante.

segunda-feira

antibrasília



some kind of happiness is measured out in miles. indeed

antibrasília


Londres é sensacional porque é o extremo oposto. Mesmo se você estiver na garçonagem rezando por um shift de 12 horas pra poder pagar o aquecimento no inverno (porque não teve trabalho ainda essa semana e sabe-lá-de-onde vai tirar dinheiro pro aluguel) existe um delírio coletivo de que alguma coisa super maneira vai aparecer na próxima esquina. Uma certeza sempre aquece o peito, pelo menos eu saí de Brasília.

antibrasília


Brasília não tem nada pra fazer. Por mais que você tenha dúzias de amigos de verdade. Por mais que você esteja por dentro de todas as festinhas. Por mais que você saiba de todos os sambas, os forrós e os shows mais legais. Mesmo que você beba e coma de graça em vernissagens pelo menos duas vezes por semana. Mesmo que você esteja por dentro de todos os esquemas da UnB, saiba de todos os agitos do Conic, seja da galera que movimenta o cinema, o teatro, quadrinhos e música. Por mais que você more no plano, tenha carro, seja concursado. Por mais que sua namorada seja linda e legal, ou que você esteja na crista da onda, cheio de gente querendo te pegar. Nada disso importa. Existe uma aura de tédio, de vazio, de que falta alguma coisa que nunca vai existir nessa cidade. Quem é de fora fala que é a praia. Outros que é o povo. Quem não conhece fala que são os políticos. Mas todo mundo concorda, mesmo os que adoram a cidade: Brasília é uma merda, não importa o quanto na verdade seja legal.

terça-feira

john lennon on benefits 2


Ainda assim, o custo da assistência social (194bi), do NHS (122bi) e da educação (89bi) somados são mais da metade do orçamento do governo. Pra se ter uma noção, a defesa só leva 40bi. Quem quiser ver as entranhas da coisa, está aqui. Aliás, falando em prestação de contas do governo, isso aqui é a coisa mais absurdamente primeiro mundo que eu já vi.

quinta-feira

inside london xii

O protesto de sábado foi grande. Ruas foram bloqueadas, incluindo a frente do parlamento e Trafalgar Square, vários policiais civilizadamente acompanharam a passeata. Dúzias de fotógrafos registraram a coisa toda. No entanto, nada na televisão nem nos grandes jornais.
Ontem milhares protestaram especificamente contra os cortes na educação (que vai triplicar o teto da anuidade que as universidades poderão cobrar). Em minoria, a polícia assegurou o parlamento, mas a turba se deslocou pra sede do partido conservador, que foi ligeiramente barbarizado por figuras mais exaltadas.
Além do aumento súbito nos preços da educação superior (que até os anos 90 era paga pelo governo, tendo sido mudada pelo parlamento trabalhista de Tony Blair), a coalizão que está no poder (partido conservador e o partido social-democrata) não é ajudada pela promessa eleitoral explícita feita pelo partido social-democrata de que não só não aumentaria os preços, como tentaria voltar ao sistema gratuito.
Por conta da destruição de propriedade privada o debate foi completamente desviado da questão dos cortes na educação para os "limites" dos protestos populares. O movimento estudantil (que aparentemente tem lideranças formais tão ineficientes quanto qualquer DCE da UnB) rapidamente condenou a violência. Só esqueceram de dizer que se não fosse por um pouquinho de destruição (14 levemente feridos, sendo 7 policiais -em meio a 50.000 protestantes), talvez ninguém que não estivesse lá saberia o que aconteceu.

sexta-feira

john lennon on benefits

A segunda metade do seculo xx na inglaterra viu a emergencia de uma serie de tentativas do Estado de melhorar a vida da população pobre da ilha. Em 1949 foi criado o NHS, o sistema universal de saúde publica ingles. Ao longo dos anos 40 se intensificaram várias iniciativas de moradias populares, imersas no ideario comunista politicamente falando e no modernismo em termos arquitetonicos. Dinheiro trasferido diretamente para familias que tivessem filhos (universalmente, sem distincao de renda) ilustravam a ideia de "beneficios universais", uma politica que era planejada pra combater a ideia de que servicos para os pobres acabam se tornando servicos pobres. Aposentadoria e seguro desemprego providos pelo Estado completavam a rede. Isso sem contar com todo o pessoal que o governo empregava com os servicoes publicos e parcelas subsidiadas da economia (como mineracao, industria pesada como manufatura de navios, forcas armadas, etc).

50 anos depois existe basicamente o mesmo modelo de assistencia social. Os milionarios ingleses recebem do governo o mesmo dinheiro por filho do que imigrantes que acabaram de se legalizar no pais. Familias vivem em monstruosos blocos habitacionais do governo a gerações por conta do contribuinte. E quando não há espaço suficiente nas acomodações erguidas pelo governo, o Estado paga o aluguel de alguma casa grande o suficiente (mesmo se for em um bairro grã-fino). Além dos impostos habitacionais (tipo IPTU) por conta. Existe o seguro desemprego (que pode durar para sempre) e outro com um nome muito legal, "jobseeker's allowance" (traduzindo vira "mesada de quem esta procurando emprego"). Além, claro, das aposentadorias por invalidez, tanto fisica quanto psicológica. Tudo isso em um cenário onde a educaçãoo (ate antes da faculdade) é gratuita, o mesmo pra saúde (o que inclue até os remédios).

As reformas neoliberais dos anos 80 da Tatcher desmontaram a parte pesada do Estado, como a mineração subsidiada e o monopólio do governo na telefonia, mas deixou intactos os serviços básicos e a rede assistencialista injetada direto no bolso dos beneficiados. Algumas lacunas deixadas pelo Estado foram preenchidas pela iniciativa privada (mas não todas, mineração e industria pesada praticamente desapareceram na ilha) justamente por responderem bem as pressões do mercado, mas o que fazer com uma crescente mão de obra destreinada e que ja consegue tudo o que precisa pela mão do governo?

Quando a economia inglesa voltou a bombar no final dos anos 90 a resposta veio do continente, (que é como se chama o "resto" da europa aqui na ilha) com a livre circulação de individuos dentro da união eurpéia. Não foi so de portugueses, gregos e irlandeses pra servir mesas e empilhar tijolos que o crescimento ingles se fez: gente de paises com educação de alto nivel subsidiada (como na frança, alemanha ou mesmo as natas de portugal, grecia e irlanda) vieram pra cargos altos. E quando o Acordo de Schengen chegou no leste europeu o processo so foi intensificado. É por isso que apesar de tantos empregos criados nos anos de bonanza de Tony Blair o desemprego total não mudou proporcionalmente ao crescimento economico. They took our jobs! (bem, na verdade they took the jobs we didn't have in the first place, mas acho que fica grande demais).


domingo

inside london xi

Fim de semana cheio de coisas pra fazer por aqui. Visita do membro da juventude nazista mais famoso do mundo. Ironicamente também é o Yom Kippur, o dia em que moises ganhou as tabas do arbusto pegando fogo (o que dizendo dessa forma realmente sôa muito maconheiro), embora mais importante que isso (demograficamente) foi o fim do Ramadan sexta passada.
...
Com todas essas sensacionais manifestações de tudo o que existe de errado no ocidente é claro que eu só saí de casa pra ir no festival de cultura japonesa.



onde pude ver sensacionais demonstrações de karate!


karaoke!


e cosplay!

Além de muito rango típico barato (evidentemente servido por chineses, porque eu nunca conheci nenhum japonês na garçonagem londrina, uma vez conheci um doidão em asterdan que foi deportado de israel e disse que trabalhava na lavoura, mas acho que isso não conta).
Tudo isso devidamente acompanhado por uma bróder japonesa (que estava reclamando que não tinha nenhum japonês de verdade vendendo comida), que fez o favor de confirmar que os caras no karaoke estavam mandando mal. Eu não sabia se eles eram ruins mesmo, ou se pior ainda, estavam cantando direitinho. J-pop é lixo, caso o leitor não saiba.

terça-feira



Ao longo da costa sul da Inglaterra existem várias carcaças militares da segunda guerra. A probabilidade de ainda estarem de pé é inversamente proporcional ao valor estratégico que elas tinham. Nada como ter como guias turísticos um casal de velhinhos que serviram décadas na marinha real.

quinta-feira

inside london x


fui lá ver o primeiro jogo da copa em trafalgar square né, ver de qualé do telão e tal. em meio ao maldito barulho das cornetas, gritos de guerra mexicanos, e no céu, inaudíveis passam dois helicópteros militares e ficam um tempo parados em cima da praça. no telão eles avisam que esse vai ser o único jogo da copa transmitido na praça. óbvio. existe um certo cinismo em ir a essas aglomerações bombardeáveis em londres.


sexta-feira

inside london ix.3


Eu humildemente fui lá desperdiçar o meu voto. Não elegi ninguém, mas pelo menos eu me livro da estranha burrice que assola as pessoas que falham em ver que escolher entre os que estão aí ou se abster é só o que se pode fazer.

inside london ix.2

Aqui não tem horário eleitoral gratuito. Aqui não tem lei seca antes da eleição. Aqui não tem proibição de boca de urna no dia da eleição. Aqui não tem carro de som. Ninguém distribue aquelas camisas de candidatos que sempre viram pano de chão. Os panfletos são mínimos, em geral entregues em casa e não na rua.
O texto dos panfletos é o que mais chama atenção. Lembra aquele clichê que a gente sempre ouve no brasil, "nenhum voto é desperdiçado", "não desperdice seu voto, ele sempre conta", etc? Então, aqui é ao contrário, os candidatos falam explicitamente "candidato tal não tem chance nesse bairro, não desperdice seu voto nele". Como não existem as complicações de proporção de votos por partido, coalizão e os cálculos (que ninguém conhece direito) pra obtenção de verbas públicas, realmente todo o voto que não no vencedor é literalmente desperdiçado.
Esse ano a eleição foi uma coqueluche para os padrões ingleses: pela primeira vez na história inglesa os líderes dos três maiores partidos participaram de debates televisivos. Tudo bem que eles já sabiam quais as perguntas perguntadas, e que a platéia não podia se manifestar (com palmas, gritos, etc), mas enfim, foi uma sensação pro país que tem inúmeros "reality shows" ver os candidatos submetidos ao mesmo formato.
Assistindo os debates é fácil ver a estranha paisagem da política inglesa: candidatos que não sorriem muito, não começam dando "boa noite", não tem nenhum carisma com o indivíduo os assistindo. Essa falta de retórica e apelo de massa explica o fenômeno Tony Blair, e eu me assusto com a ingenuidade da classe política para com a possibilidade de ser tomada por um movimento populista que saiba explorar esses vazios, mas enfim, o sistema impede muita inovação mesmo -boa ou ruim.
O concenso entre as políticas partidárias são (como em qualquer país ocidental hoje) são muito maiores que as diferenças, mas um concenso que diz muito sobre a política inglesa (e o eleitor não londrino) é visto logo na primeira pergunta do primeiro debate (4:30 minutos do video) é a necessidade de controlar a imigração. Mais totalitário que isso só propondo a construção de campos de imigração (immigration camps), mas enfim, é só a minha opinião.
A maior questão dessa campanha ilustra ainda mais a distância da política normal brasileira- os partidos discutiam basicamente onde e quando eles iriam cortar nos gastos do governo (dada a crise). O partido trabalhista falava em cortar mais gradativamente, o conservador em cortar agora logo, e o social democrata alguma coisa entre isso. Minha imaginação limitada não consegue nem conceber um candidato a alguma coisa no brasil se elegendo prometendo cortar algum serviço público, mas aqui é assim que funciona, eles competem sobre os cortes.

inside london ix.1

Diferenças no sistema à parte, a maneira que as eleições são encaradas aqui é totalmente diferente. O voto não é obrigatório, e o dia de votação não é feriado, nem mesmo domingo, mas ao menos pode-se votar das 7 da matina até as 10 da noite.
Os lugares em que se vota são improvisadíssimos: eu votei numa escola aqui perto de casa, mas teve casos esdrúxulos -como de salões de beleza com urna eleitoral, tipo vote cortando o cabelo. Sério. Os mesários são funcionários públicos oficiais, não são cidadãos aleatórios, onde eu fui só tinham três -um pra conferir seu nome numa lista, um pra entregar a cartela de candidatos ao parlamento, e outro pra te entregar a cartela de candidatos ao governo local (que não parecem ser mais do que uns burocratas eleitos, sem grandes poderes políticos, eu mesmo não vi propaganda nenhuma desses sujeitos em lugar algum). Pega-se a cartela que você tem direito, (eu só pude votar nas eleições locais) marca-se no quadradinho do seu candidato (só um no caso do candidato ao parlamento, até três no governo local) depois é só botar o voto na urna.
As "cabines de votação" são duas tábuas na parede te separando da próxima cabine, sem nem aquela cortininha clássica atrás. Nas paredes estava o material normal de sala de aula, sem nenhuma menção à eleição.
Não existe título eleitoral na grã-bretanha, você se registra dando o seu endereço e nome completo, até quinze dias antes da eleição e recebe pelo correio um papel dizendo onde você vai votar. Ninguém pede nenhuma forma de identificação na hora de votar, (não existe carteira de identidade na inglaterra) você fala seu nome e endereço e é isso.

quinta-feira

inside london ix

Duas semanas atrás eu votei numa escola aqui perto de casa. Eu adoro eleições, mas foi impossível não ver nesse humilde evento o abismo de diferenças culturais que existe entre brasil e grã bretanha. Chamar isso aqui de democracia é uma licensa poética. Me explico.
Aqui, como o leitor alfabetizado sabe, reina uma rainha sobre duas casas legislativas (que também são executivas, não tem a famigerada separação de poderes como no sistema americano). Uma dessas é a "house of lords", que não tem membros eleitos, eles são apontados por gente importante e tem cargos vitalícios e hereditários. Eles votam coisas e tal, mas são submetidos à segunda casa, a "house of commons", essa sim com membros eleitos. "Eleitos" no sistema inglês, que é radicalmente diferente do brasileiro. Cada distrito eleitoral (tipo um bairro ou cidadezinha) elege um dos 650 ministers os parliament (MPs), o sujeito que ganha a maior parte dos votos no seu distrito se elege, independente de quantos votos isso foi, pode ter sido 70%, 40%, 12%, tanto faz, contanto que tenha sido mais do que o segundo mais votado. Não raro acontece da maioria dos eleitos não refletir a maioria dos votos no país, e isso é particularmente eficiente em limar partidos menores, que não conseguem concentrar votos em um só distrito, mas sim um tantinho em cada canto do país (como o partido verde inglês, ou o BNP, british national party, o partido facista inglês).
Como esse sistema acaba consolidando a existência de dois partidos fortes, na inglaterra de hoje eles são o partido conservador (apelidado carinhosamente de Tory) com 305 MPs eleitos, e o trabalhista (na atual configuração igualmente carinhosa conhecida por New Labor) com 258 eleitos. Outro partido grandinho é o partido social democrata (sem apelido), que conseguiu 57 cadeiras. O gráfico ajuda.
Com um total de 650 cadeiras, a não ser que algum partido consiga pelo menos 326 (50%+1), ninguém tem uma maioria clara. Isso na política inglesa é uma desgraça enorme, eles tem até um nome pra isso, chama "hung parliament" (tipo "parlamento na corda", pendurado, etc). Se você acha que a política é a arte das alianças e negociações, dos toma-lá dá-cá, aqui não tem nada disso. O mercado entra em pânico só pela possibilidade de não acontecer uma maioria clara, e os panfletos políticos e jornalistas pregam o apocalipse se um partido não conseguir a maioria, o governo seria fraco e indeciso, e isso é intolerável.


quarta-feira

inside london viii


Ninguém tinha certeza de como seria a vida em Londres, ou do que poderia acontecer com a minha modesta pessoa. De entrar na vida de crime e prostituição barata até assumir a reitoria da London School of Economics, tudo era uma incógnita. Eu sempre tive uma só certeza, já quase esquecida no fundo da mente, que se cumpriu ontem: eu iria tomar um baculejo anti-terrorista no metrô. Batata amigos e amigas, batata.

sexta-feira

inside london vii: a garçonagem invade a educação

Então, seguindo os passos da minha mulher agora eu também trabalho como professor assistente (teaching assistant). Funciona assim: quando por algum motivo a escola precisa de um adulto a mais em sala de aula -seja pra dar uma atenção extra a alunos especiais que tenham down ou autismo- ou simplesmente pra ficar de olho nos mais pestinhas, eles ligam pra essa agência que manda pessoas como eu pra ir quebrar o galho.
Paga bem, o dia corre rápido e ainda dá margem pra tirar mais um troco a noite no telemarketing. Mais que isso, ainda dá pra dizer (aham) que tem alguma coisa a ver com aquela coisa que eu passei cinco anos e meio estudando. Um pequeno preço a se pagar pra não ter que viver em Brasília trabalhando pros mesmos chefes dessas figuras adoráveis do video.
Desobediência civil (de servidores públicos) à parte (mais sobre isso depois), o que esse trampo tem me permitido ver da educação inglesa me deixou muito surpreso. O sistema aqui é bizarro, pra dizer o mínimo. Existe uma ênfase maluca em disciplina e preocupação zero com a qualidade dos professores. O próprio emprego de leigos bem intencionados (como eu) é uma amostra do descaso institucional que a educação sofre aqui. Afinal, as pessoas ririam de um hospital que recrutasse enfermeiros ou médicas de agências que não exigem nada além de uma ficha criminal limpa.
Pra ser honesto, existe um curso formal e toda uma burocracia pra poder ser "oficialmente" um professor na inglaterra, mas como tudo nesse país, ninguém sabe exatamente como funciona, e a variedade de maneiras que existem pra obter a licensa pra ser um professor não ajudam a entender a coisa.
Uma coisa no entanto é fato: o requerimento mínimo pra obter uma dessas licensas é o equivalente ao ensino médio brasileiro, e se você já tem "experiência como professor" (como eu estou tendo agora) o curso dura consideravelmente menos (mas o máximo nunca passa dos dois anos).
O resultado é óbvio mesmo pra quem nunca ouviu falar em cultura institucional -um leigo que "aprenda" na prática com colegas cansados e igualmente destreinados obtem todos os vícios e desilusões vigentes do sistema, e depois em um cursinho de alguns meses algum outro desiludido finge que ensina alguma coisa diferente, ou pior ainda, um acadêmico que nunca trabalhou em campo prega idealizações que serão rapidamente descartados pelo senso de "experiência" do leigo.
Adicione o fato de que as coisas já são assim tem um tempo: aparentemente desde que chegou ao poder, o New Labor teve como compromisso com a educação simplesmente encher as salas de aula com adultos (até agora todas as salas nas quais eu trabalhei tinham pelo menos um professor e dois TA), o que evidentemente não melhora em nada a qualidade da educação, mas apela pro senso comum de que menos alunos por professores seria uma coisa boa.
No fim das contas, a baixa formação exigida, a baixa remuneração e a terceirização dos professores leva a um descaso institucional e pessoal com toda a educação. Se o "educador" não passa de uma bengala que é usada cada dia em um lugar diferente, sem planejamento nenhum, e todos os seus colegas profissionalizados advém da mesma cultura -de tratar o trabalho em sala de aula como os garçons tratam os jantares nos quais trabalham em Londres: só um bico que nunca exige mais do que estar presente na hora combinada, o resultado não é difícil de prever.

sábado

inside london vi

Folheando entre as páginas de uma velha bíblia no British Museum encontro um trecho estranho, perto do Genesis:
"-Venho desarmado, disse o homem, e quero conhece-la, falou usando as palavras da época.
-Se estás desarmado, perguntou a mulher, o que há nesse ventre roto que nunca cria nada?
Ao que o homem baixou a cabeça e se foi."
Numa prateleira mais baixa encontrei outra edição dessa Bíblia, que tinha uma versão na qual o homem era Abel e respondia:
"-Raiva, respondeu o homem, o que com o tempo logo aprenderás a gostar.
E ao chegar em casa bufando Abel se deparou com seu irmão e avançou nele. Caim então se defendeu matando seu irmão sem querer. Enquanto enterrava o corpo ascendendo os incenços como mandava O Senhor, perguntou a Yaveh o porquê disso tudo. Não teve resposta, mas desde então irmãos não puderam conhecer a mesma mulher, o que antes não incomodava ao criador."
Estranho.

terça-feira

inside london v.1

Vamos então terminar de exorcisar esse fantasma existencialista: quase comprei o clássico dos clássicos (clássico sendo um livro que todo mundo conhece mas ninguém lê), o Ser e o Nada, do Sartre. Por que? simples: além de todo o blábláblá filosófico de tentar justificar o livre arbítrio por uma série de truques linguísticos, é sempre bacana ler essas coisas que ninguém lê e ver as distorções meméticas que rolam, aprofundar a cultura geral, e perceber os moralismos escondidos nos cantos dos supostos amorais. Sacanagem, só queria ler porque ele fala de garçons no livro.
Enfim, desisti, minha cultura geral vai ter que se contentar com aqueles pedaços xerocados da unb mesmo. Até porque, em uma continuação da nossa maré de sorte, conseguimos uma tv gigante. Não que eu consiga ficar muito tempo engolindo bbc, mas agora eu tenho onde ligar o videogame. Pronto, agora é que emburreço de vez. Vou ter que escrever sobre crítica pós-moderna da arte eletrônica, semiótica de narrativas interativas, das impressões culturais nipo-nerds, da relação com a máquina, ética cyborg, etc.
Ou não. Recebi a visita do Fernando (na real...), um dos melhores do meu semestre. Veio passear pela europa com a família, fez muito mais coisa em duas semanas do que eu em nove meses. Quando nos encontramos, um programa de braziliense -tomar uma cerveja e comer umas besteiras em casa. Inevitavelmente ouvi muitas notícias das coisas e das pessoas, e me lembrei que tudo isso continua existindo. Antes de vir, no entanto, Fernando me perguntou se eu queria alguma coisa do Brasil, respondi sem pestanejar "uma cópia do Grande Sertão Veredas". Mais um clássico, tomara que me impeça de perder demais as estribeiras por aqui.
...
Até porque, se existir alguma coisa genuinamente brasileira, com certeza é o sertão. Sem a contaminação de fora que sempre assolou a corte portuguesa e consequentemente a cultura carioca, sem os africanismos do litoral bahiano, e contido inteiro no país, ao contrário dos pampas, da amazônia, do pantanal. Só no sertão emergiu um brasileiro estranhamente distinto, uma raça, quase uma biologização de um pedaço da cultura. Enfim, vou ler o livro.

inside london v


Atualizando, porque escrever correspondencias pessoais é parecido com sexo oral: não importa o quanto se possa divertir fazendo pros outros, receber é muito melhor e mais fácil.
Meus dias de pub se foram, as coisas já estavam insustentáveis (mentira, a necessidade faz quase tudo sustentável), o chefe irlandês embirrou comigo, eu também não gosto muito desse negócio de chefe que não trabalha, cobra trabalho, bebe o dia inteiro e nem sorri, somado à insalubridade da coisa toda, saí fora. Claro que eu não sou tão atitude assim (e menos endinheirado ainda), e só saí porque a Amanda nos descolou uma entrevista em um trampo de telemarketing numa empresa de pesquisa de satisfação do sonsumidor que precisava de brasileiros, pra ligar pra pessoas no Brasil.
O trampo paga muito melhor (ainda não estou roubando emprego de ingleses, um dia chego lá), e é sentadinho, em turnos de 4 horas, sem chefes bêbados ou turistas cheios de falsas promessas de gorjeta. Claro, cheio de ilusões de importância e grandeza que eu sou, ainda tem momentos que acho tudo isso muito non-sense, esses trabalhos de merda, essa situação bizarra e sem propósito algum. Ainda bem que a cura pra isso é fácil: há que se lembrar que qualquer situação é non-sense e sem propósito, convenhamos. Pense na sua vida -ela também não faz sentido e não é nada demais, tu também poderia estar bem melhor, ou fazendo alguma coisa mais importante. nhé.